São João Batista na Umbanda

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Hoje, a gente vai responder algumas dúvidas e comentários dos ouvintes: O que é gira? O que é linha de trabalho? Será que a Umbanda mata galinha na encruzilhada? Ficou curioso? Aperta o play!

Transcrição do Episódio

Oi. Galerinha, bom dia, boa tarde, boa noite! Tudo bem por aí? Vamos conversar mais um pouquinho sobre Umbanda? Meu nome é Evandro Tanaka, eu sou médium umbandista e hoje eu vou usar esse episódio aqui para responder algumas perguntas que me fizeram.

Lembrando, pessoal, que não existe pergunta idiota. Idiota é quem não faz a pergunta e fica guardando a dúvida para si mesmo. O que vai diferenciar uma pergunta da outra é o grau de conhecimento que você tem sobre o assunto.

E olha, eu vou reproduzir aqui o que os meus guias costumam falar para mim: não é porque eu estou falando que é assim que acontece. Eu não sou o dono da verdade. O dono da verdade é Zambi e essa verdade plena, a gente desconhece. O que nós temos são apenas fragmentos de verdade. Muitas das coisas que eu falo sobre Umbanda é uma opinião particular minha. Foram reflexões, estudos que eu fiz, conclusões que eu tirei de mensagens recebidas do plano espiritual, de leituras que eu fiz sobre o assunto. Mas isso não significa, absolutamente que eu sou o dono da razão.

Vocês querem estudar a Umbanda ou o Kardecismo de uma maneira séria? Então questionem, duvidem, reflitam sempre sobre as informações que vocês recebem! Não é porque um médium (incorporado ou não) ou uma Entidade espiritual está passando para vocês determinadas informações que vocês precisam acatar essa informação cegamente. Porque tem muita gente que faz assim, né? Abaixa a orelha para o que a Entidade fala, para o que o pai de santo fala ou dirigente fala. Não é assim, não, gente! Com relação a assuntos que envolvam a espiritualidade, vocês tem que ser questionadores.

E olha, eu vou dizer uma coisa para vocês: se a casa que vocês frequentam é uma casa séria, se as entidades que se manifestam naquela casa são espíritos de luz, tenham certeza de que eles não vão ficar melindrados com os seus questionamentos. Muito pelo contrário, eles vão ficar até felizes pela sua vontade de aprender. Como dizia Allan Kardec (e isso eu guardo muito dentro de mim), a sua fé precisa ser raciocinada. Porque a fé cega se transforma em fanatismo. E isso não é legal. O fanatismo leva ao radicalismo religioso.

A Maria Clara, de Votuporanga, ela faz a seguinte pergunta: Evandro, qual é a diferença de linha e gira? Eu estou há pouco tempo na Umbanda, mas lá aonde eu vou, às vezes as pessoas falam que vai ser linha de preto-velho, às vezes elas falam que vai ser gira de caboclo. Eu fico meio confusa.

Maria Clara, olha só… você pode até usar esses dois termos como sinônimo nesse contexto que você tá falando, ok? Ah, hoje vai ser linha de preto-velho ou hoje vai ser gira de preto-velho. Mas quando a gente fala em gira, a gente tá se referindo ao ritual em si. Vamos abrir a nossa gira, vamos abrir os trabalhos. Você entende? A gira, na Umbanda, é como se fosse a missa na igreja católica ou o culto na igreja evangélica. Vamos para missa? Vamos para o culto? Vamos para gira? A linha de trabalho, por outro lado, se refere ao tipo de espírito que vai se manifestar naquela gira, de acordo com o seu arquétipo. São espíritos que se agrupam por determinadas afinidades ou características para fazer o trabalho na Umbanda. Então, por exemplo, linha de preto-velho, são espíritos que se manifestam utilizando a roupagem fluídica característica do preto-velho. Eles se apresentam como anciãos, negros, como pessoas humildes, mas que carregam a experiência da vida. A linha de Caboclo também é um agrupamento de espíritos que possuem características próprias: são espíritos que se manifestam com mais vitalidade, com mais força, com mais impetuosidade, são espíritos que, de certa maneira, tem uma ligação com povos indígenas ou povos matutos. Esse é o Arquétipo do Caboclo.

Então, eu posso perguntar para você assim: – Oh Clara, hoje vai ter gira? Daí você responde: sim, vaj vai ter gira (se referindo ao trabalho). Daí eu falo: “ah, legal! É gira do quê?” Daí você pode dizer: eu acho que vai ser gira de baiano. (se referindo que a linha de trabalho que vai se apresentar naquele dia são de espíritos que se apresentam como baianos). Ok? Consegui tirar sua dúvida?

O Anônimo, não sei de onde, ele faz o seguinte comentário: “gente falsa, fica falando isso e aquilo, mas e os trabalhinhos que a gente vê no meio da rua? Isso é certo?

Bom Anônimo, eu não sei o que você quis dizer exatamente com o seu comentário, mas eu vou tentar desconstruir essa imagem negativa que talvez você tenha com relação à Umbanda. Muita gente confunde trabalho de magia negra com Umbanda, Candomblé, Quimbanda… Quem não sabe o que é, por preconceito ou por ignorância, acaba colocando tudo no mesmo balaio.

A Umbanda não faz trabalhinhos, como você diz, muito menos no meio da rua. O que você viu ou o que você vê por aí, pode ser trabalho de demanda, algum trabalho de magia-negra, algum tipo de trabalho com entidades trevosas, mas que não tem relação nenhuma com a Umbanda ou Candomblé. Disso eu tenho certeza.

Os espíritos que se manifestam na Umbanda, além deles não fazerem trabalho de demanda, eles desfazem os trabalhos que foram feitos. Então, Rogério, eu garanto para você que a Umbanda não faz amarração, Umbanda não faz você ganhar dinheiro fácil, Umbanda não traz o seu amor de volta em 7 dias. O que você vai encontrar na Umbanda é ajuda para evoluir, para melhorar como pessoa.

Com relação às oferendas: a Umbanda faz sim rituais de oferenda. Isso faz parte da nossa religião. Mas essas oferendas nunca são feitas nas ruas. Elas são feitas dentro dos terreiros ou em pontos de forças específicos da natureza. E detalhe: as oferendas, nos rituais de umbanda, são compostas normalmente de frutas, flores, ingredientes naturais, mel, azeite. Mas nunca sacrifício de animais. A Umbanda não pactua com sacrifício de animais. Isso pode até acontecer em alguns rituais religiosos de culto de nação, do Candomblé. Mas não na Umbanda. E mesmo nesses rituais de corte do candomblé, tudo é feito com o mais absoluto respeito ao animal, com o mínimo de sofrimento possível. E depois que o animal é sacrificado, no ritual de corte, eles preparam a carne desse animal para os filhos de santo consumirem. Nada é desperdiçado.

E assim, eu vou dar uma opinião pessoal minha: seria muito hipócrita da nossa parte julgar esses rituais religiosos do culto de nação que sacrifica os animais para fazer comida de santo, quando a nossa própria sociedade abate diariamente milhares e milhares de animais para consumir a carne. E olha que o abate desses animais acontece em situações de extrema crueldade. Então, o que tem de errado de uma comunidade abater um animal em um ritual religioso para oferecer aos orixás e depois preparar a comida de santo, sendo que a nossa sociedade faz pior?

Mas eu repito. O sacrifício de animais não faz parte da Umbanda, tá bom?

Bom, dito isso, o que que a gente vai fazer agora? Vamos ouvir uma poesia do Pai Antônio?

Tem uma poesia que eu queria ter lido ela para vocês quando eu falei sobre o Orixá Xangô. Essa poesia conta uma passagem quando de alguém (na época essa pessoa estava encarnada, né. hoje é uma entidade que trabalha na Umbanda). Então, a poesia conta o diálogo que essa pessoa travou com João Batista, nas margens do Rio Jordão. E olha que engraçado, né gente, enquanto eu recebi essa poesia do Pai Antônio, me vinha sempre a imagem de Xangô na Cabeça. E eu não sabia por que… Depois de muito tempo que eu recebi a poesia, pesquisando na Internet, eu descobri que São João Batista também é sincretizado com Xangô. Eu fiquei surpreso, porque até então, o sincretismo de Xangô, para mim, era com São Jerônimo. Foi assim que eu aprendi. E quando eu leio a Bíblia, que fala de João Batista, nossa… eu sinto muito a energia de Xangô. Vamos ouvir a poesia?

Tudo aconteceu há dois mil anos,
Quando perdido, em meus desenganos,
Deixei um momento sublime passar.
Por séculos vaguei arrependido,
Por um dia não ter conseguido,
A Luz Divina enxergar. 

Lembro-me bem daquele momento,
Atirava impropérios ao vento,
Escarnecendo da Criação.
Utilizava meu tempo ocioso,
À margem de um rio caudaloso,
Chacoteando com meus irmãos. 

Havia um homem naquele recanto
Que muitos diziam ser Santo
E que batizava a multidão.
As pessoas se aglomeravam,
Alguns sorriam, outros choravam
Com o batismo no Rio Jordão. 

Meu desprezo era crescente
Por aquela figura influente
Que cativava os corações.
Ele dizia batizar pelas águas
Mas em mim, só haviam mágoas
A perturbar minhas emoções. 

Um dia, o homem se aproximou
E com a voz enérgica falou:
"Arrependa-te dos teus pecados."
Num minuto de insensatez,
Aflorou-me a estupidez
E eu respondi mal-educado: 

"Afasta de mim a tua voz
Antes que eu seja o algoz
A afogá-la neste rio.
Tua presença me incomoda,
Leva embora a tua moda,
Tua vida está por um fio!" 

O homem respondeu sereno:
"Não bebas do próprio veneno
Ao Pai, levarei o meu rogo.
Se hoje tu recusas a água,
E preferes cultivar essa mágoa,
O teu batismo será pelo fogo." 

Eu senti, daquele dia em diante
Uma perturbação constante
Alfinetando o meu coração.
Eu queria muito esquecer
A humilhação que acabava de ter
Repreendido com o tal sermão. 

No dia em que João foi preso,
Ele estava totalmente indefeso,
E eu comemorei com euforia.
Pois sabia, era questão de tempo,
Até conseguirem o intento,
Com a vingança de Herodias. 

E não tardou para acontecer
Depois de muito sofrer
O nobre João foi decapitado.
Sua cabeça ensanguentada
Foi rudemente arrancada
E para o rei, ele foi levado. 

Na noite em que Batista morreu, 
Alguma coisa me aconteceu,
pois não sentia mais alegria.
Tinha o peso do mundo nos ombros,
Os meus dias se tornaram escombros,
Dos meus lábios, nada mais se ouvia. 

Pelo restante da minha vida
Ouvi sempre uma voz contida
Falando baixinho ao meu coração:
"Ao Pai eu levo o meu rogo,
Teu batismo será pelo fogo".
Foram as palavras de João. 

Depois de um tempo, eu desencarnei
E pelas sombras escuras vaguei
Mais de mil anos arrependido.
Finalmente, a oportunidade surgiu
Para nascer num ambiente hostil,
Quando na Europa, eu fui acolhido. 

Reencarnei em plena Idade Média
E para completar minha tragédia,
Com a mediunidade bem aflorada.
Logo fui considerado bruxo,
Encarcerado sem qualquer luxo,
Tive a sentença prolatada. 

Ao chegar o dia da execução,
Sem qualquer tipo de compaixão,
Na madeira seca, fui amarrado.
Minha alma chorava de agonia
Pois lá no fundo eu compreendia
Porquê estava sendo queimado!

Quando o padre acendeu a tocha, 
Fiquei imóvel como uma rocha,
Tremendo, de coração aflito.
O sacerdote, então, se aproximou
E com imensa raiva blasfemou:
"Queime no inferno, espírito maldito!" 

O fogo se alastrou na madeira
Que começou a queimar por inteira
Provocando dor insuportável.
A minha pele começou a arder,
E o sangue parecia ferver.
Naquele minuto interminável. 

Mas antes de perder o sentido
Uma voz falou ao meu ouvido:
"Filho, Cristo escutou o meu rogo!
Pelas águas, recusaste o batismo
Mas pela porta do Cristianismo
Eu vim batizar-te com fogo!" 

Gente, gente, gente! Que história! Eu desacreditei quando eu recebi essa história. O testemunho dessa Entidade, por si só, já é uma grande lição de moral para todo mundo! Ele teve a oportunidade de se redimir dos pecados naquele encontro com João Batista, mas ele recusou. Ele quis continuar naquela vida errada. Quantos de nós recebemos oportunidades diárias para nos redimirmos perante as leis divinas, para nos reformarmos? E quantos de nós ignora essa oportunidade, assim como fez esse espírito?

Hoje nós estamos recebendo a oportunidade de aprender e de nos redimir pela água (ou seja, de uma maneira indolor), mas se a gente não aproveitar esse momento que a vida nos oferece para começarmos esse processo de transformação interior, se a gente se recusar a mudar o nosso comportamento, assim como fez o personagem da poesia. Então, da próxima vez, o nosso batismo será pelo fogo (ou seja, pela dor, pelo sofrimento). O fogo que purifica! E vocês lembram que eu falei lá no episódio de Xangô que o fogo é um dos elementos desse Orixá. Pois é! A justiça divina que muitas vezes se manifesta através do fogo, da dor, do sofrimento. Essa poesia traz uma mensagem: se vocês não querem ser batizados pelo fogo, aceitem o batismo pela água. É mais fácil, vocês podem começar a trabalhar a sua reforma interior de uma maneira mais tranquila. Primeiro, a vida nos convida à transformação, assim como João Batista convidou aquela pessoa a se arrepender dos seus pecados. Mas depois, num segundo momento, o convite se transforma em uma imposição. A vida fala assim: você não quis evoluir por livre e espontânea vontade? Então agora você vai evoluir por livre e espontânea pressão! É o batismo pelo fogo que fala a poesia.

Bom, pessoal, espero que vocês tenham gostado de mais esse episódio. Obrigado pela participação da Ana Clara e do Rogério, fazendo perguntas e comentários. Espero que eu tenha conseguido esclarecer um pouco sobre o assunto. E não deixem de nos procurar, sempre que vocês precisarem ou quiserem, nem que seja só para prestigiar o nosso trabalho. Isso já me deixa muito feliz!

Vocês podem acompanhar os nossos episódios pelo Spotify, Google podcast, Deezer, Apple podcast, Anchor Fm, Youtube e pelo nosso site almadepoeta.com.br. Um grande abraço a todos e que o nosso Pai Maior os abençoe sempre!

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