O Mosaico de Religiões e Filosofias dentro da Umbanda

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A influência das diversas crenças religiosas e filosóficas na construção da Umbanda. Neste episódio você vai entender a capacidade que a Umbanda tem de absorver o melhor que há de cada religião e filosofia para construir o seu próprio caminho.

Transcrição do Episódio

Olá, meus irmãos de fé, meus irmãos camaradas! Amigos de tantos caminhos e tantas jornadas. Vocês gostam de Roberto Carlos? Eu acho que eu sou o único macumbeiro que gosta de Roberto Carlos. Mas ele tem umas músicas muito bonitas, né? Jesus, Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo eu estou aqui. Como vocês podem ver, hoje eu acordei cantante! Como diz o ditado, quem canta, seus males espantam! E é verdade, gente! É impressionante como a música tem o poder de mudar o nosso estado de espírito.

Quando você estiver triste, depressivo, injuriada, bota uma música alegre para tocar, uma música inspiradora. Vocês vão ver como que a música é terapêutica. Não é à toa que a Umbanda se utiliza tanto dos pontos cantados. Os pontos cantados, no seu ritmo, na sua melodia, na sua letra, acaba proporcionando um estado de bem-estar, o estado vibratório da nossa alma se modifica. Meu nome é Evandro Tanaka, eu sou médium umbandista e esse é o podcast Alma de Poeta, criado em homenagem ao nosso querido Pai Antônio. O quê? Você não sabe quem é o Pai Antônio? Então ouve lá o nosso primeiro episódio! Lá eu conto como eu conheci esse preto-velho cheio luz que me acompanha!

E sobre o que que a gente vai falar hoje? Eu quero cantar só, estou com vontade de cantar! Mas se depender das minhas habilidades de cantor, esse podcast vai morrer! . Bom, mas vamos lá! Vocês lembram quando eu falei que a Umbanda é uma religião que agrega? Com o passar do tempo ela começou a absorver conceitos e até mesmo ritualísticas de outras religiões.

Do Catolicismo, por exemplo, a Umbanda absorveu o uso do altar e das imagens dos santos. Se vocês pararem para ver, todo terreiro de Umbanda tem um altar. Nós chamamos de congá. E é no congá que são feitas as firmezas para os Orixás e para as Entidades. E esse conceito de altar como ponto de força, foi importado da Igreja Católica. Assim como também aconteceu com o culto às imagens. Porque no espiritismo-kardecista não existe esse conceito de altar. Os kardecistas fazem as reuniões mediúnicas sem a utilização de altar algum, muito menos de imagens. No kardecismo, os médiuns simplesmente se sentam ao redor de uma mesa e começam a trabalhar. Sem grandes ritualísticas.

Então, o Catolicismo trouxe para o ritual da Umbanda esses elementos. É graças ao catolicismo que os terreiros de Umbanda se utilizam de um altar central e também sincretizam as forças divinas, os Orixás, com os santos católicos.

E o kardecismo? O kardecismo também teve um papel muito importante na Umbanda. Aliás, a Umbanda nasceu dentro de um centro kardecista, né? Vocês lembram que eu falei desse assunto no episódio 28, com a manifestação do caboclo das 7 encruzilhadas? E o kardecismo, através da sua doutrina, traz ensinamentos muito sólidos de como funciona esse intercâmbio do plano físico com o mundo espiritual. Tanto é que eu aconselho as pessoas, antes de estudarem a Umbanda, de lerem as obras de Allan Kardec.

Porque esses livros nos proporcionam um embasamento muito grande para que a gente possa trabalhar com mais segurança a nossa mediunidade. Sem contar que os livros de Allan Kardec nos trazem explicações muito claras sobre as leis que regem o nosso universo, as nossas vidas. É uma filosofia profunda que exige uma vida inteira de estudo. Vocês querem ter uma base do mundo espiritual, do que vocês vão encontrar quando passar para o lado de lá, então, comecem estudando os cinco livros do Allan Kardec. A gente chama de pentateuco. Vocês podem começar lendo o livro dos espíritos, depois podem ler o Evangelho segundo o espiritismo, depois podem ler o céu e o inferno, o livro dos médiuns e a gênese. Lendo esses cinco livros, eu tenho certeza de que vocês vão ficar com uma visão muito mais ampla de como funcionam as coisas. Essa é contribuição do kardecismo para Umbanda. Através do kardecismo, nós começamos a entender melhor a lei da reencarnação, a lei da causa e efeito. Nós começamos a entender melhor a atuação das Entidades desencarnadas na nossa vida, seja espírito de luz, seja espírito das sombras.

Uma outra religião que tem uma influência muito forte na Umbanda é o Candomblé. Foi por meio do Candomblé que a Umbanda absorveu o conceito dos Orixás. Claro que a Umbanda acabou construindo uma visão muito própria de Orixá, né? O conceito de Orixá na Umbanda é diferente do conceito de Orixá no Candomblé, como eu já falei em algum capítulo anterior aí que eu não me lembro qual. Se bem que, hoje em dia, o intercâmbio entre a Umbanda e o Candomblé é tão próximo que um acaba absorvendo o entendimento do outro. As doutrinas vão se misturando.

Tanto é que hoje já existem terreiros que se autodenominam Umbandomblé. De tão próximas que se tornou uma religião da outra. E além do conceito de orixás, o candomblé também trouxe parte da sua ritualística para Umbanda. Por exemplo, os assentamentos, que muitos dirigentes espirituais, pais de santo, acham que é fundamental para proteção de um terreiro, isso vem do candomblé. Lá no início da Umbanda, os terreiros não tinham assentamentos, eles tinham firmezas. para quem não sabe, assentamento é um ponto de força do terreiro onde são enterrados determinados elementos relacionados à energia do Orixá que sustenta aquela casa.

O uso da quartinha também, que alguns terreiros adotam, também vem do candomblé. O costume que os umbandistas têm de fazer oferendas para os Orixás e Entidades também vem do candomblé. O toque de instrumentos de percussão durante as giras, como o atabaque e o agogô também vem do candomblé. Vocês percebem a riqueza ritualística que o candomblé trouxe para umbanda. E o Candomblé, na sua essência é lindo! As cerimônias de louvação aos Orixás no candomblé são maravilhosas! O xirê, as cantigas em Iorubá! É uma cultura muito rica!

Uma outra influência muito grande que teve na Umbanda foi a Pajelança. A influência da cultura indígena nos trabalhos mediúnicos. E isso se deve, principalmente, pela atuação dos nossos irmãos caboclos. Então, a pajelança trouxe para umbanda o uso medicinal das folhas, das raízes, O uso da bebida e do fumo como instrumentos de trabalho. E percebam que quando eu falo de pajelança, eu estou me referindo também ao xamanismo. Porque a pajelança nada mais é do que o xamanismo característico dos índios da nossa terra.

É graças ao xamanismo que a Umbanda absorveu a compreensão e a maneira de utilizar as energias naturais que existem nos elementos. Quando as entidades fazem o seu trabalho na força do ar, do fogo, das águas, da terra, elas estão aplicando conceitos xamânicos. É a pajelança dos índios trazidas para nossa religião. Tem alguns terreiros que utilizam até mesmo o chocalho e as maracas, que são instrumentos típicos da cultura indígena. Eu acho linda essa integração que existe entre o xamanismo e a umbanda. Porque essas são duas religiões, ou filosofias, sei lá como você interpreta o xamanismo, que veneram a natureza. Tanto para o xamanismo como para umbanda, a natureza é sagrada. A natureza é a manifestação de Deus na terra. E nós, seres humanos, somos parte dessa natureza, né? E sendo parte dessa natureza, nós também somos manifestações divinas.

E além dessas religiões e filosofias que eu já falei, o mais legal de tudo é que a Umbanda ainda continua absorvendo conceitos de outras crenças. Porque a Umbanda, ela está num processo constante de evolução. Então, você vai reparar que a Umbanda já absorveu conceitos até mesmo de filosofias orientais. A Umbanda trouxe do hinduísmo, por exemplo, o conceito de chackras. A necessidade que nós temos de harmonizar os nossos chackras para ter uma vida melhor. A importância que os chackras desempenham na comunicação mediúnica. A relação que existe de cada chackra o seu Orixá.Você sabiam que tem isso?

O chackra coronário, por exemplo, aquele que fica em cima da nossa cabeça, ele é regido pela força de Oxalá. O chacrka frontal, que no ocultismo é conhecido como terceiro olho, aquele que fica bem no meio da testa, é regido por Oxóssi. O chacrka laríngeo é regido por Iansã. O chackra cardíaco é regido por Oxum. Claro, né, sentimento, amor. O chacra esplênico, que é aquele que se localiza mais ou menos na altura do seu estômago, é regido por Ogum. O chackra umbilical é regido por Xangô. E o chacrka básico é regido por obaluaê, porque é ele que nos conecta à energia telúrica. É interessante, né, como todas as filosofias se inter relacionam de uma maneira ou de outra. Então, esse conceito de chackras que a umbanda trabalha tem origem no hinduísmo.

O Budismo também trouxe uma contribuição importante para Umbanda. Porque o budismo trouxe a necessidade de se praticar a meditação, não só para se autoconhecer, como também para aprimorar a nossa sensibilidade mediúnica. Eu já falei disso quando a gente conversou sobre meditação. Agora eu não me lembro se foi no 11 no 18 ou no 20. É tanto assunto, gente, que eu acabo me perdendo. Eu sei que num desses episódios eu conversei sobre a importância da meditação no nosso desenvolvimento mediúnico.

Porque para você aprimorar o seu contato com o plano espiritual, primeiro você tem que aprender a controlar sua mente, né? Você tem que adestrar a sua mente a se manter em um estado sereno. Como dizem os adeptos da meditação, você tem que esvaziar a sua mente. E essa é a parte difícil, né gente? Esvaziar a mente exige muita disciplina, muita dedicação, muito exercício. Mas essa é a contribuição que o budismo nos trouxe. Meditar para evoluir. Meditar para se conectar com mais facilidade ao nosso eu interior e, consequentemente, facilitar a comunicação com o plano espiritual.

E sabe de onde que a Umbanda também absorveu conhecimentos? Da bruxaria! Mas a bruxaria que eu estou falando não é essa que vocês estão pensando, não, de fazer maldade para os outros. Quando eu falo de bruxaria, eu estou me referindo ao conjunto de técnicas magísticas utilizadas para manipular as energias que existem na natureza. É lógico, gente, que a bruxaria pode ser utilizada tanto para o bem quanto para o mal. Assim como mediunidade também pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal. Isso depende apenas da intenção da pessoa.

Tanto a mediunidade quanto a magia são apenas ferramentas de trabalho. É igual um martelo. Você pode usar um martelo para construir, como você também pode usar para matar alguém. Vai depender apenas da sua intenção. E a bruxaria, algumas pessoas chamam de Wicca, trouxe muito para umbanda o trabalho através dos cristais, dos amuletos, dos talismãs. E vocês vão ver que algumas práticas magísticas vieram da África também, como é o caso dos patuás. para quem não sabe, patuá é um saquinho de pano onde as pessoas colocam determinados elementos da natureza e que servem como proteção.

Daí as pessoas usam o patuá pendurado no pescoço ou amarrado na cintura. Esse também é um instrumento magístico. Aliás, gente, vocês podem reparar que o grande interesse da maioria das pessoas pela Umbanda, é por causa desse lado magístico. As pessoas procuram a Umbanda, muitas vezes para tentar resolver os seus problemas através da magia. Como se a magia fosse o antídoto milagroso para livrar a pessoa do karma que ela precisa passar, não é verdade? A magia ajuda e ajuda muito, se feita da maneira correta, respeitando as leis de Deus. Porque a magia feita da maneira errada, e quando eu falo da maneira errada, eu estou me referindo à magia negra, ela pode até surtir um efeito imediato. Mas o preço que você vai pagar por ter desarmonizado as leis do universo é muito grande. Nâo vale a pena, gente! Aprendam sim a usar a magia para ajudar, para harmonizar as pessoas, mas nunca satisfazendo um interesse egoísta, seja seu ou da pessoa que está pedindo.

Vocês já ouviram falar Vodú? estou até vendo um monte de gente aí fazer o sinal da cruz. Porque a maioria das pessoas associam o Vodú com magia-negra. É isso que a gente vê nos filmes, né? Do pessoal fazendo aqueles bonequinhos de pano e depois ficar espetando agulhas para pessoas ficarem doentes ou até mesmo morrer. Mas isso que a gente conhece é o lado distorcido, é o lado negativo do Vodú. Porque o Vodú também é uma ferramenta. E ele pode ser usado tanto para o bem quanto para o mal. Aliás, gente, lá no Haiti, o Vodú é uma religião, assim como a Santeria é uma religião em Cuba. Eu arriscaria até a dizer que o Vodú e a Santeria são primos do Candomblé e da Umbanda. São religiões magísticas.

E se a gente parar para estudar o Vodú a fundo, deixando esse estereótipo negativo de lado, você vai ver que não é nada daquilo. O Vodú também ajuda muitas pessoas. Da mesma maneira que um feiticeiro confecciona um bonequinho de pano para prejudicar alguém, ele também pode fazer um bonequinho de pano para equilibrar a pessoa, para energizar. Ao invés do feiticeiro espetar o coitado do bonequinho com agulhas, ele pode também banhar aquele bonequinho com fluídos terapêuticos, com banhos de ervas, com elementos da natureza que vão ajudar aquela pessoa a se curar de uma doença, por exemplo. Ou então proteger aquela pessoa contra investidas do baixo-astral. Existe toda uma ciência por detrás da magia.

Mas voltando aqui para Umbanda, eu quero dizer o seguinte: sabe por que muitas pessoas ficam fascinadas com o lado magístico da Umbanda? É porque essas pessoas também mexeram com magia em vidas passadas. A maioria dos médiuns que trabalham hoje na Umbanda, inclusive eu, teve alguma ligação com magia no seu passado reencarnatório. E não foram experiências positivas, está gente? Nós mexemos com magia da maneira errada, prejudicando pessoas. E por isso nós estamos hoje na Umbanda. para resgatarmos um pouquinho do débito que nós angariamos com atitudes equivocadas, dessa vez trabalhando a magia da maneira certa, para ajudar as pessoas que nos procuram. Essa é uma outra missão da umbanda: colocar os antigos magos, bruxos e feiticeiros no caminho certo.

E eu fico tão triste quando eu vejo, nessa vida, pessoas manipulando energias para prejudicar o próximo ou para tirar proveito de determinada situação, porque eu sei que essas pessoas vão sofrer muito quando voltarem para o plano espiritual. Essas pessoas vão precisar de outras reencarnações expiatórias para reparar amanhã o mal que estão fazendo hoje. Eu peço ao nosso Pai Oxalá que perdoe a essas pessoas, assim como ele nos perdoou, oferecendo sempre novas oportunidades de crescimento espiritual.

E é isso gente, esse foi o nosso bate-papo de hoje. Espero que vocês tenham curtido. Assim como a umbanda procura absorver o melhor das outras religiões, nós umbandistas também precisamos tentar absorver o melhor das outras pessoas. E qualquer pessoa, por mais simples e humilde que seja, sempre vai ter algo de bom a nos acrescentar. Basta apenas termos a boa vontade de nos mantermos receptivos ao que nos é passado. Peço a Deus que eu também possa contribuir de alguma forma para deixar algo positivo para as pessoas, embora a minha capacidade de fazer o bem ainda seja muito limitada.

Hoje eu não vou falar nada de plataformas de áudio. Vocês já devem estar cansados de ouvir a mesma coisa no final de todo episódio. Se vocês não sabem onde encontrar o Alma De Poeta, ouçam os outros episódios que vocês vão descobrir.

Um grande abraço para vocês, fiquem com Deus e até o nosso próximo encontro!

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