Falando um Pouco sobre Zé Pelintra

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Zé Pelintra é uma Entidade muito adorada e respeitada pelas pessoas, principalmente pelos Umbandistas. E ele traz todos os trejeitos do típico malandro: tem um jeito boêmio, gosta da vida noturna, gosta de bebida, de mulheres e de jogo. Só que, ao mesmo tempo, o Seu Zé se manifesta com muita bondade, com alegria e com humildade.

Transcrição do Áudio

Olá, povo da Umbanda! Bom dia, boa tarde, boa noite, boêmios da madrugada! Me desculpem, mas hoje eu estou com vontade de falar de malandro. Na verdade, eu estou com vontade de falar de um malandro em especial. O malandro mais famoso que existe. Não existe um malandro maior na Umbanda para se falar do que esse: Seu Zé Pelintra! Eu espero que vocês gostem, meu nome é Evandro Tanaka, eu sou médium umbandista e nesse podcast a gente fala sobre Umbanda, Espiritualidade e Mediunidade.

Bom gente, vamos começar do começo, para quem é leigo no assunto conseguir entender essa figura tão emblemática, tão carismática e tão controversa que existe na Umbanda. Zé Pilintra é um Guia Espiritual que faz parte da Linha dos Malandros na Umbanda. E como todo malandro que se preze, ele trabalha em favor daqueles que são marginalizados pela sociedade. Porque ele, o Zé Pelintra, quando viveu aqui na Terra, passou por mesmo problema. Zé Pelintra sofreu na pele a discriminação: por ser órfão, por ser negro, por ser imigrante, por ser pobre.

Só que hoje, como guia espiritual, Zé Pelintra é uma Entidade muito adorada e respeitada pelas pessoas, principalmente pelos Umbandistas. E ele traz todo aquele trejeito característico da malandragem: tem um jeito boêmio, gosta da vida noturna, gosta de bebida, de mulheres, de jogo. Só que, ao mesmo tempo, o Seu Zé se manifesta com bondade, com alegria, com humildade… Só que da mesma maneira que o Zé Pelintra foi discriminado em vida, ele também sofre a discriminação como espírito, por se apresentar com esse jeito malandro.

Gente, eu não consigo imaginar um Zé Pelintra se manifestando em um centro kardecista. Eu, pelo menos, nunca presenciei isso, mas acho que seria uma situação muito engraçada. Ainda mais num centro kardecista que eles são todos certinhos, todo mundo compenetrado! De repente chega lá um malandrão, debochado, desbocado, brincalhão, galanteador com as mulheres. Com certeza, o pessoal iria querer doutrinar o Zé Pelintra pra ele procurar a luz. Mal sabem eles que o Zé Pelintra já é um espírito muito mais iluminado do que nós!

Eu estou brincando com isso, mas o Pai Antônio me falou uma vez que o Zé Pelintra também se manifesta nos centros kardecistas, não com aquelas características de malandro com que ele se apresenta na Umbanda. Nos Centros Kardecistas ele se apresenta como um mentor, muitas vezes como um Doutor Fulano de Tal. Porque, dessa maneira, os kardecistas aceitam melhor as mensagens que o Zé Pelintra quer transmitir. Eles deixam o preconceito de lado.

Por que, gente, eu vou falar uma coisa para vocês: eu amo o espiritismo kardecista. Essa é a doutrina onde eu cresci. Só que o kardecismo ainda carrega muito esse negócio de julgar pelas aparências. Eles julgam o espírito pela manifestação. Então, num centro kardecista, eles acham que um espírito de luz não pode brincar, não pode contar piada, tem que transmitir uma mensagem séria, tem que se manifestar com etiqueta. E muitos espíritos na Umbanda não tem esse perfil. E nem por isso eles deixam de ser evoluídos, de ter sentimentos bons, de praticar o bem!

Afinal de contas, o que é ser um espírito evoluído? É compreender as leis karmicas de causa e efeito? É praticar a caridade? É ter compaixão do próximo? É viver de acordo com os ensinamentos do Cristo? Zé Pelintra faz tudo isso! Mas ele não abre mão daquela personalidade alegre, feliz, daquele jeito de malandro debochado. E ele se sente muito bem em ambientes que recebe ele do jeito que ele foi aqui na Terra! Sem que ele precise conter a sua manifestação, sem que ele precise disfarçar a sua alegria. É por isso que Zé Pelintra gosta tanto da Umbanda! Porque na Umbanda ele trabalha do jeito que ele tem vontade de trabalhar!

É engraçado, né? Esse ponto fala que o Zé Pelintra veio de Alagoas. Na verdade, existem várias histórias e lendas que contam a vida de Zé Pelintra. Mas a mais conhecida é aquela que fala que ele nasceu no sertão de Pernambuco, num povoado chamado Bodocó. Daí, conta a lenda que, durante a infância dele, teve uma grande seca na região e a família do Zé resolveu ir embora para Recife, justamente para fugir da seca que devastava a região.

Naquela época, o Zé Pelintra se chamava José dos Anjos (que nome bonito, né). Só que o destino foi cruel com o menino José dos Anjos. Toda a sua família desencarnou, vítima de uma doença misteriosa. Ninguém sabe qual foi essa doença. Alguns dizem que foi a gripe espanhola. O fato é que o menino José, desde cedo, precisou aprender a se virar sozinho. Ele se criou nas ruas de Recife, se virando como podia para se sustentar.

E foi ainda na infância que o Zé conheceu a boemia. Ele começou a trabalhar como garoto de recados para os malandros da cidade e também para as prostitutas. E desde cedo ele se envolveu naquela atmosfera de mulheres e jogatinas. Ele aprendeu a trapacear no jogo para garantir o seu sustento. Afinal de contas, se ele perdesse, ele passava fome. E para se defender contra os perigos da vida noturna, o Zé se tonrou um homem muito habilidoso na briga com facas e navalhas. Ninguém tinha coragem de enfrentar ele numa briga com faca, nem mesmo a polícia.

Daí, quando o Zé entrou na juventude, ele resolveu ir tentar a vida no Rio de Janeiro. Ele ouviu falar da fama que tinha a malandragem carioca e ele resolveu ir conhecer de perto aquela malandragem. Eu estou falando do Rio de Janeiro da década de 20, da década de 30… quando a cidade estava passando por uma grande transformação. O Zé Pelintra chegou no Rio justamente justamente na épóca em que as favelas estavam começando a se formar nos morros cariocas. E ele ficou muito conhecido no bairro da Lapa, Estácio, Gamboa, na zona Portuária. Quem mora no Rio de Janeiro sabe do que eu estou falando. Foi lá na cidade maravilhosa que Zé Pelintra construiu a sua fama!

Bom, como vocês perceberam, o Zé Pelintra era nordestino, né? E o povo nordestino é um grande conhecedor do poder das ervas no tratamento. E o Zé levou todo esse conhecimento que ele adquiriu no Nordeste para o Rio de Janeiro. Ele tinha aprendido, quando morou lá em Pernambuco, a fazer certos tratamentos com ervas. E quando o Zé Pelintra voltou para o plano espiritual, ele continuou estudando o benefício das ervas para o ser humano. E hoje, o Zé Pelintra aplica esse conhecimento, quando se manifesta nas giras de Umbanda. Não raras vezes, ele passa receita de banhos de ervas, de chás, de emplastos para as pessoas que buscam atendimento.

Mas vamos voltar lá para a cidade do Rio de Janeiro: o Zé Pelintra ganhou fama na cidade por duas razões: primeiro porque ele era um exímio jogador. Dificilmente alguém ganhava dele na jogatina. Lógico que ele tinha os truques dele lá para conseguir ganhar. E a segunda razão pela qual ele ficou famoso é que ele era um galanteador nato! Por onde ele passava, ele arrastava corações femininos. Gente, sabe aquele ditado: “azar no jogo, sorte no amor”? Para o Zé esse ditado não existia! Para ele era sempre “sorte no jogo e sorte no amor”! Ele era bom nessas duas coisas. E lógico que essa habilidade do Zé como jogador e como amante, acabou fazendo com que ele angariasse muitos inimigos, né? Seja por que o cara perdeu uma grana pesada para ele, seja porque o cara perdeu a mulher para o Zé Pelintra. O fato é que o Zé começou a ser muito invejado pelos truques e façanhas que ele fazia. E isso custou sabe o quê? A sua vida! O Zé Pelintra foi assassinado com uma punhalada pelas costas, na maior trairagem. Lógico, né? Tinha que ser pelas costas, porque pela frente, ninguém tinha coragem de enfrentar ele com uma faca. O cara era bom! Não se sabe, ao certo, quem matou o Zé Pelintra. Alguns dizem que foi uma mulher enciumada, outros dizem que foi um antigo desafeto. Mas o que todo mundo concorda é que ele foi morto pelas costas.

E olha, gente, o Zé Pelintra ficou tão famoso com esse estereótipo do malandro carioca, que a sua fama se tornou internacional. Eu não sei se vocês sabem, mas o próprio Walt Disney criou um personagem inspirado na fama de Zé Pelintra. Esse personagem ficou conhecido lá fora com o nome de Zé Carioca. Vocês lembram daquele papagaio brasileiro meio malandro? O Zé Carioca era o típico malandro daquela época: o jeito de falar, o jeito de agir, o jeito de se vestir, tudo inspirado na figura do Zé Pelintra. Se aqui no Brasil, o malandro carioca era visto de uma maneira distorcida, lá no estrangeiro eles tinham uma visão totalmente diferente da malandragem brasileira. E essa visão ficou consagrada no desenho daquele papapagio: o Zé Carioca.

Percebam que hoje, na espiritualidade o Zé Pelintra ainda se apresenta trajando um terno branco, sapatos bem lustrados, gravata vermelha e chapéu panamá. Esse era o típico malandro carioca do começo do século passado. Às vezes ele se apresenta também carregando uma bengala, sempre com muita elegância, com muita simpatia, com muita alegria.

E olha, gente, o Zé Pelintra, como um bom malandro, tem uma habilidade muito grande de se manifestar, tanto na linha da esquerda quanto na linha da direita. O Zé Pelintra é uma entidade que tem uma maleabilidade energética muito grande. Ele consegue descer no meio de Exú e Pombajira, ele consegue descer no meio de baianos, ele consegue descer no meio de caboclo e preto-velho. O próprio ponto que vocês ouviam canta isso, né? “Zé Pelintra, Zé Pelintra, boêmio da madrugada, vem na linha das almas e também na encruzilhada”. Esse ponto está dizendo que o Zé Pelintra desce tanto na linha de preto-velho (conhecida como linha das almas), como também na encruzilhada, ou seja, nas giras de Exú e Pombajira. Agora, vocês imaginam o tanto de conhecimento do mundo espiritual essa entidade não possui para conseguir andar livremente nessas diversas faixas energéticas?

Porque não é qualquer espírito que consegue fazer isso, não viu! Não é qualquer espírito que consegue se manifestar com tanta desenvoltura na linha da esquerda e da direita. E o Zé Pelintra tem essa capacidade! Às vezes ele muda até o jeito de falar, se adequando ao ambiente em que ele está trabalhando. Só que assim, de uma maneira geral, o Zé Pelintra fala usando uma linguagem muito simples, né? Às vezes usando até gírias da boemia da época, fazendo metáforas com jogo, como se a vida fosse uma partida que a gente tem que aprender a jogar. O Zé Pelintra fala que só existe uma coisa mais importante do que a vitória: é a derrota! Porque a derrota, sim, traz conhecimento. É a derrota que ensina o jogador a não repetir o mesmo erro. Vamos ouvir outro ponto de Zé Pelintra? Eu acho que esse é um dos pontos mais famosos que eu conheço:

O ponto que eu aprendi a cantar era diferente. Eu aprendi a cantar assim: “pisa na Umbanda Zé Pelintra, eu quero ver.” Enfim, seja Umbanda ou Aruanda, o Zé Pelintra pisa onde ele quer.

Eu digo uma coisa para vocês, gente, o Zé Pelintra sabe como ninguém aproveitar as oportunidades. Ele aproveitou as oportunidades que teve quando em vida, e ele soube agarrar as oportunidades depois que desencarnou também. Se hoje, o Zé Pelintra se manifesta como guia, é por mérito próprio! Ele agarrou as oportunidades também no plano espiritual para se desenvolver. Depois que o Zé Pelintra desencarnou, ele evoluiu muito! Tanto é que o seu esforço foi reconhecido e ele recebeu a permissão da espiritualidade de luz de se manifestar na Umbanda como guia das pessoas que o procuram.

Hoje, na Umbanda, Zé Pelintra se tornou praticamente o padroeiro dos desafortunados, dos que sofrem discriminação, dos que são ameaçados. Zé Pelintra se tornou o protetor daqueles que a sociedade enxerga com desdém. Daqueles que sofrem as dificuldades da vida, das pessoas humildes que devolvem o sofrimento com sorrisos. Zé Pelintra vem ensinar que ser marginal não é ser bandido, mas apenas estar à margem da sociedade. Marginal não é ladrão, mas é a pessoa que não é aceita no meio em que vive.

O Zé Pilintra é um Malandro que teve uma condição de vida dura, sofrida… ele foi negligenciado como ser humano, mas apesar de toda a discriminação que sofreu aqui na Terra, não guardou rancor de ninguém, nem mesmo da pessoa que o assassinou. Muito pelo contrário! Após o desencarne, o Zé Pelintra começou a ajudar intensamente as pessoas que, assim como ele, passam por dificuldades, sempre com um sorriso no semblante e com um jeito de malandro. E isso conferiu a ele uma certa elevação espiritual que o autorizou a trabalhar na Umbanda.

Lembrando, pessoal, que o Zé Pelintra não é cultuado só na Umbanda, não, viu! Ele tem uma presença muito marcante no Catimbó também! Aliás, no Catimbó, Zé Pelintra é considerado um espírito que se tornou encantado! Para quem não sabe, o Catimbó uma religião popular e muito bonita que existe no norte e nordeste do Brasil. E o Catimbó tem uma ligação muito forte com a pajelança indígena e o Candomblé de Caboclo da Bahia.

E hoje, o Zé Pelintra como entidade, pelo fato dele atuar na Umbanda, no Catimbó, no Candomblé de Caboclo, ele prega muito a tolerância religiosa. O Zé Pelintra diz que sem a tolerância religiosa, o ser humano viverá sempre em guerras, matando em nome de Deus.

Mas para o Zé Pelintra, todas as religiões são boas. Porque o princípio de todas as religiões é o mesmo: é fazer o homem se espiritualizar; é fazer o homem despertar a consciência para o que é real; é fazer o ser humano despertar a consciência para Deus.

E sabe um outro ensinamento do Zé Pelintra? Ele diz que todos nós somos aprendizes, por maior que possa ser o nosso grau evolutivo, estamos todos em constante aprendizado. E o Zé Pelintra tem um entendimento da Umbanda que eu, particularmente, me identifico muito! Ele diz que a Umbanda é o local de encontro de todas as religiões para todos os necessitados (eu acho lindo isso que ele fala), porque eu também vejo a Umbanda dessa maneira! A Umbanda para mim é um ponto de convergência. Vamos lá, seu Zé! Fecha essa porteira e não deixa o mal entrar!

O galo já cantou lá na Aruanda chamando o seu Zé! O Zé Pelintra é considerado meio que o médico dos pobres, é o advogado dos injustiçados. Zé Pelintra ajuda a quem é devoto de Santo Antônio, também ajuda a quem é devoto de Exú; é o protetor dos comerciantes, dos bares, lanchonetes, restaurantes. Zé Pelintra é aquele que se socorre em nome de Jesus. O Zé Pelintra é aquele espírito que chega chegando em qualquer gira, não importa se é gira de caboclo, de preto-velho, de baiano, de marinheiro ou de exú.

E o Zé Pelintra, pessoal, é um espírito muito festeiro, mas que gosta muito de ensinar, principalmente as coisas que ele aprendeu no plano astral. E ele ensina todo mundo sem distinguir se é rico, se é pobre, se é branco ou se é negro, se é jovem ou velho. A discriminação e o preconceito são palavras que Zé Pelintra não conhece. Ou melhor, talvez sejam palavras que ele conheceu muito bem aqui na Terra e que, por isso, ele tenha riscado ela do seu dicionário.

Agora eu quero pedir licença para vocês e aproveitar esse episódio para fazer uma prece a essa entidade que eu admiro tanto!

Salve Seu Zé Pilintra, mensageiro da luz, guia e protetor de todos aqueles que, em nome de Jesus, praticam a caridade. Dai-me Seu Zé Pilintra, o sentimento suave que se chama misericórdia, assim como os bons conselhos que me guiarão a vida; dai-me a proteção quando for do meu merecimento; dai-me o apoio, a instrução espiritual de que eu necessito. Dai me forças, Zé Pelintra, para que eu consiga dar aos meus inimigos o mesmo amor e misericórdia que você teve com os seus. Que a sua falange de malandros possam amparar a todos os homens e mulheres na terra para que eles sejam felizes como tu és, para que eles possam viver sem amarguras, sem lágrimas e sem ódio. Tomai-me, Zé Pilintra, sob a vossa proteção. Desviai de mim os espíritos atrasados que ainda se encontram no jugo das trevas. Iluminai o meu espírito, a minha alma, a minha inteligência e o meu coração na luz do nosso pai Oxalá. Que Deus, em sua infinita misericórdia, cubra de bençãos a ti, a mim e a todos em minha volta. Que assim seja, Seu Zé! Que assim seja!

Esse é o Zé que eu amo! Esse é o Zé que eu venero! Tem gente que acende vela para Santo Antônio, para Santa Rita, para São João. Eu acendo vela para Zé Pelintra! E eu tenho certeza que ele me ouve e que ele me ampara sempre que eu preciso! E eu quero terminar esse episódio de uma maneira bem brasileira, refletindo a alegria do nosso povo, essa alegria que se manifesta na gira dos malandros. Eu quero terminar esse episódio tocando um ritmo que exala a nossa brasilidade!

Espero que vocês tenham gostado do episódio. E continuem acompanhando o nosso podcast nas plataformas de áudio: no Spotify, no Deezer, no Google Podcast, no Apple Podcast, no Amazon Music e também pelo nosso site: almadepoeta.com.br. Entrem lá no site e mandem uma mensagem para mim! Eu vou ficar muito feliz! Um grande abraço, fiquem com Deus! Salve seu Zé Pelintra, e salve a malandragem!

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