A Linha dos Caboclos – Parte 2

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Saiba um pouco mais sobre a Linha dos Caboclos na Umbanda, quais são os elementos de trabalho utilizados por eles e a sua finalidade. Conheça também o “jeitão pouco amistoso” dos Caboclos darem atendimento durante as giras.

Transcrição do Episódio

E aí, pessoal! Tudo bem? Sejam bem-vindos a mais uma gravação do nosso podcast “Alma de Poeta”. Hoje a gente vai continuar falando sobre a linha dos Caboclos, dando continuidade ao que a gente havia começado no episódio 21. Meu nome é Evandro Tanaka, eu sou médium umbandista e nesse podcast a gente fala sobre Umbanda, Espiritualidade, Mediunidade e também sobre as poesias do Pai Antônio.

Na Umbanda, a figura do Caboclo nos remete à ideia daquele espírito que tem um contato mais direto e intenso com a natureza, principalmente com as matas! Muitas vezes chamado de capangueiros da Jurema! Muitas vezes chamado de caçador! Não o caçador que mata animais por prazer, mas o caçador no sentido figurado. Aquele que vai em busca do sustento para o seu povo, para sua família, aquele que está na busca incessante por conhecimento.

Quando a gente fala da Linha dos Caboclos, a gente está se referindo a uma das 3 principais Linhas de Trabalho na Umbanda. Quais são elas? Crianças, Caboclos e Pretos-Velhos. Essas são as linhas que nós chamamos de Linhas Principais de Trabalho. E complementando as linhas principais, nós temos as linhas auxiliares, que são todas as outras linhas que se manifestam na Umbanda: Baianos, Boiadeiros, Ciganos, Marinheiros, Povo Do Oriente, dentre outras. Então, as linhas de trabalho da Umbanda são estruturadas dessa maneira: linhas principais e linhas auxiliares.

E percebam que as três linhas principais (crianças, caboclos e pretos-velhos), elas representam também as fases da vida de uma pessoa: a criança representa a infância, a primeira fase da vida, o início, a ingenuidade, a pureza; o Caboclo já representa a fase adulta, a maturidade, o auge do vigor físico e mental, as realizações na vida; e o preto velho representa a melhor idade, a velhice que vem acompanhada da sabedoria pelas experiências acumuladas durante tantos anos.

E um dos pontos pelos quais podemos identificar um terreiro de Umbanda é justamente a manifestação dessas três linhas de trabalho. Todo terreiro de Umbanda tem (ou pelo menos deveria ter), gira de criança, gira de caboclo e gira de preto-velho, que são as 3 linhas sustentadoras da nossa religião.

Durante um tempo, eu trabalhei numa casa que só recebia preto-velho. Toda semana era preto-velho. A casa não dava liberdade para outras linhas de trabalho se manifestarem. Daí, o que acontecia? Muitas vezes acabam descendo as linhas misturadas. Vinha Caboclo junto com preto-velho, vinha povo do oriente junto com preto-velho… Às vezes, num mesmo dia, tinha Criança, Baiano, Marinheiro… Era uma bagunça. E por que isso acontecia? Apesar da casa não aceitar que outras linhas de trabalho prestassem atendimento, a espiritualidade sentia a necessidade de trabalhar outras energias. Às vezes por uma necessidade específica daquele dia, seja com os consulentes ou até mesmo por uma necessidade do próprio médium.

Eu visitei uma casa, durante um tempo, que se recusava a fazer gira de Erês, gira de criança. O dirigente simplesmente falava que não tinha gira de criança e ponto. Olha, gente, eu particularmente, apesar de respeitar essas e outras maneiras de se levar a caridade, como Umbandista eu entendo que essas 3 linhas de trabalho são fundamentais para sustentar um terreiro. Porque cada uma dessas três linhas traz energias muito distintas, muito peculiares e que se complementam. Eu não consigo enxergar um terreiro de umbanda que não tenham essas três linhas de trabalho.

Salve o Caboclo 7 Flechas! Okê Caboclo!!!

Quem já participou de uma gira de caboclo sabe como é a manifestação de um caboclo ou de uma cabocla? Normalmente são espíritos mais sérios, mais contidos nas palavras. Alguns, dão até a impressão de serem um pouco carrancudos, sisudos. Como é o caso Jupiassú, por exemplo, a quem eu sirvo nas giras de caboclo. Porque eles não têm o hábito de dar risada, de fazer brincadeiras, como acontece em outras linhas. É do estereótipo deles isso. E esse jeito mais ou menos austero de ser, muitas vezes até provoca um certo temor da pessoa que está sendo atendida. Às vezes um Caboclo ou uma cabocla passa a imagem de ser um espírito bravo. E não é nada disso! É uma característica do arquétipo.

Vocês nunca ouviram falar das características de outros povos? Por exemplo, que o povo japonês é mais fechado, que os americanos são mais impessoais, que os italianos gesticulam muito as mãos para falar, são mais espalhafatosos? Então, na espiritualidade é assim também… Cada agrupamento de espíritos tem a sua característica… em uma gira de preto-velho, por exemplo, você vai notar carinho das entidades. Aquele carinho de vô de vó… Em uma gira de criança, o que você vai notar bagunça e alegria! E numa gira de caboclo, você vai notar austeridade. Não pensa que um caboclo vai chegar para você do jeito que chega um baiano: alegre, extrovertido… não vai! Não é da natureza do Caboclo esse tipo de comportamento. Geralmente Caboclo não gosta de falar muito. Tanto é que uma gira de caboclo costuma acabar rapidinho. Porque não fica aquela enrolação de nhenhenhé entre consulente e entidade, sabe? Eles costumam ser secos e diretos. Mas não porque eles são mal-educados. É a maneira de ser deles. Eles fazem o que tem que fazer, limpam, benzem, passam algumas orientações rápidas e até logo! Chama o próximo!

Mas não se enganem, gente! Os Caboclos têm um comprometimento impecável com o trabalho espiritual. Eles são extremamente disciplinados, meticulosos e perseverantes! Não é à toa que muitas vezes são caboclos que assumem a direção espiritual da casa. Na maioria das casas de Umbanda, o guia-chefe do terreiro, ou é um Caboclo ou é um preto-velho. Não foge muito dessa regra. Às vezes um baiano, mas é mais difícil. Geralmente caboclo ou preto-velho.

E como é que os Caboclos costumam trabalhar? Eles gostam muito de usar folhas e ervas para descarregar ou energizar os consulentes. E também gostam de usar charuto como dispersor de energias ruins. Porque o fumo, ele atua no plano astral como um dissipador de energias. Mas eu estou falando do fumo, fumo mesmo, tá gente? Aquele fumo puro. Não estou falando de cigarro industrializado cheio de química. Porque na Umbanda, isso aí não serve para nada, não.

Aliás, gente, eu queria abrir aqui um parêntese para falar sobre um assunto muito mal compreendido para quem não é da Umbanda. E até mesmo para umbandistas que não tem o devido esclarecimento. O uso de bebidas alcóolicas e fumo pelas Entidades, nos trabalhos de Umbanda, são apenas para limpar energias densas. Não tem nada a ver com alimentar vício de entidade. Porque os espíritos evoluídos que se manifestam na Umbanda, em trabalhos bem dirigidos, eles já se desapegaram dos vícios da matéria há muito tempo! Eles não vêm fazer a caridade em troca de um trago. Eles não sentem mais falta dessas sensações grosseiras do corpo físico.

Inclusive, as próprias Entidades de luz da umbanda orientam os seus cavalos a não consumir esse tipo de produto durante os atendimentos, nem nos dias de gira. Então, quando o preto velho pede para o cambono acender um cachimbo ou cigarro de palha para ele, não é para o médium ficar tragando. A única coisa que o médium precisa fazer é soprar a fumaça na direção da pessoa que está sendo atendida. A espiritualidade que vai manipular a parte etérica desses elementos para fazer o que precisa ser feito. Geralmente é uma limpeza no corpo astral da pessoa ou algum desligamento energético.

Da mesma maneira, quando um Exú pede um copo de pinga, por exemplo (na umbanda a gente chama de marafo) ou uma Pombajira pede uma taça de champagne, ou quando um cigano pede uma taça de vinho, não é para ficar bebendo enquanto dá atendimento. É para manipular a energia etérica do álcool. Então, gente, a ingestão de bebida alcóolica em excesso ou o consumo de cigarros por parte do médium, nas giras de umbanda não tem nada a ver com o trabalho que a Entidade está fazendo. Isso é uma deficiência do médium. Ok? Até porque, quando o organismo do médium absorve a bebida, toda a parte etérica que poderia ser trabalhada pela Espiritualidade se perde, acaba sendo absorvida também pelo organismo. Quando o médium traga a fumaça o cachimbo ou cigarro de palha, também acaba absorvendo aquela substância que poderia ser utilizada pelo seu guia espiritual para ajudar os consulentes. Vocês que são médiuns de trabalho, pensem sobre isso, tenham mais consciência, principalmente na hora de usar o álcool e o fumo.

Salve o Caboclo Tuninambá, na sua força e na sua luz! Essa linha de caboclo é maravilhosa!

Algumas vertentes da Umbanda costumam classificar a linha dos caboclos em Caboclos de Pena e Caboclos de Couro. A Linha dos Caboclos de pena seria sustentada pelo poder de Oxóssi, enquanto que a Linha dos Caboclos de Couro seria sustentada pelo Poder de Ogum. Nessa divisão, a gente inclui os índios como sendo caboclos de pena e os boiadeiros como sendo caboclos de couro. Essa vertente da Umbanda considera o boiadeiro como sendo um caboclo. Eu, particularmente, prefiro considerar os boiadeiros como sendo uma linha específica, está gente. Até porque existe a Linha dos Boiadeiros, que é sustentada por um outro Orixá. Mas assim, esse é um entendimento meu. Fiquem à vontade para escolher a visão com a qual vocês mais se identificam! Afinal de contas, essa é a beleza da Umbanda: a diversidade!

Mas agora vocês sabem, né que quando eu falar sobre caboclo, eu estou me referindo aos Caboclos de pena. Querem fazer uma oferenda para os Caboclos e Caboclas? Vocês podem fazer oferendas com frutas! Melão, melancia, banana, manga… Se vocês quiserem, podem oferecer palmito in natura. Evitem fazer oferendas pros caboclos com mel ou com leite. A energia desses alimentos é discrepantes com a linha dos caboclos. Se vocês quiserem adoçar, no lugar do mel, vocês podem usar melado de cana-de-açúcar.

Então fica assim, gente! Como vocês já devem ter percebido, eu vou fazendo aqui esses episódios sem planejamento algum. Totalmente à deriva. Acho que é por isso que eu gosto de gravar esse podcast. Eu vou falando o que dá na telha, eu falo daquilo que eu estou com vontade de falar no dia e pronto. Espero que vocês se acostumem com essa minha indisciplina! Ou acostuma ou para de escutar os episódios, né? Um dos dois.

Agradeço muito por vocês estarem nos acompanhando. Espero que o pouco que eu sei sobre Umbanda possa ajudar, de alguma a encontrar um caminho, assim como eu encontrei. Que os ensinamentos da Umbanda nos transformem em pessoas melhores, que os ensinamentos passados por nossos guias possam nos fortalecer para continuar a nossa escalada evolutiva.

Se você está gostando, compartilha! Fala que eles podem ouvir no Spotify, na Amazon Music, no Deezer, no Google Podcast, Apple Podcast, Anchor Fm, Youtube e também acessando o nosso site “almadepoeta.com.br”. Eu peço a benção de todos os caboclos, que eles possam nos amparar na caminhada! E até o nosso próximo episódio!

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