A Beleza da Simplicidade

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Ilustração: Ramira Yuri Ribeiro. O que uma gira de Umbanda tem a ver com humildade e simplicidade? Para nós, Umbandistas, tem tudo a ver! A começar pela manifestação das Entidades! A beleza da vida se reflete nas coisas simples! Quer saber mais? Aperta o play!

Transcrição do Episódio

Salve, salve, meus povo! Está tudo muito bem, está tudo muito bom? Estou muito feliz de está aqui com vocês hoje, gravando mais esse episódio… Meu nome é Evandro Tanaka, eu sou médium umbandista e nesse podcast a gente fala sobre Umbanda, Espiritualidade, Mediunidade e também sobre as poesias do Pai Antônio.

E eu queria compartilhar com vocês uma experiência que eu tive esse final de semana. Porque eu fui visitar a casa de duas pessoas que tem o coração iluminado. Essas duas pessoas mantém lá um espaço dentro da casa delas que eu carinhosamente chamo de terreiro. É um lugar onde eles fazem orações, desenvolvem seus trabalhos mediúnicos, tocam atabaque, distribuem amor, orientação e carinho pras pessoas que os visitam. É uma casa que reflete a Umbanda em toda a sua beleza e simplicidade! Exatamente aquilo em que eu acredito! Exatamente como eu vejo a minha religião! Como disse Jesus no sermão da montanha, “bem aventurados os humildes, porque deles é o reino dos céus”! Vocês não tem ideia de como essas palavras se encaixam em uma gira de Umbanda.

Quanto mais simples é o lugar, quanto mais simples é o ritual, mais eu percebo a presença de Zambi e dos espíritos evoluídos. Quando eu participo de uma gira de umbanda pautada na simplicidade e na humildade, eu consigo compreender exatamente o que Jesus quis dizer sobre o reino dos céus. Porque é uma energia tão boa, tão envolvente, tão sublime, que durante algumas horas, eu me sinto transportado para o paraíso! Durante algumas horas eu consigo sentir a energia iluminada dos nossos guias de luz. Por esse motivo, eu queria muito agradecer ao Valdo e à Nilma por terem me recebido tão bem em sua casa. Que o nosso Pai Oxalá continue abençoando e derramando muita luz no caminho de vocês!

Eu como umbandista, acabo sempre relacionando a minha fé com a simplicidade. E quando eu penso em simplicidade, eu penso na natureza, na luz do sol, do mar, da imensidão do céu, nessa obra perfeita do nosso pai Olorum. E nessa hora, eu tenho a certeza de que nada irá nos faltar…

Não é bonita essa música? Nós somos chamados filhos do senhor das estrelas! Porque assim como Deus criou as estrelas, ele também criou a todos nós. A simplicidade de Deus fez a beleza do Universo.

E a Umbanda é isso, gente: é simplicidade! A beleza da vida está nas coisas simples! Vocês não vão encontrar Espíritos de luz pedindo para vocês viverem no luxo e na ostentação. Não é assim que a banda toca, não! Porque se fosse você assim, Jesus não teria feito questão de nascer em um estábulo, em meio a animais. Se a riqueza fosse importante para o espírito, Buda não teria abandonado o seu palácio, o seu posto de príncipe, para viver praticamente como um indigente em busca de iluminação.

E sabe como eu vejo uma gira de umbanda? Como eu acho que ela deveria ser? Eu fico imaginando o seguinte: se os meus guias espirituais estivessem encarnado, onde é que eles fariam essa gira? Será que o preto-velho iria sentir prazer em fazer uma gira lá na casa grande, para atender pessoas aquelas abastadas, ou ele iria preferir fazer a sua gira na humildade da senzala, para ajudar pessoas que ele sabe que tão em sofrimento? Será que o Caboclo se sentiria bem de fazer sua gira em salões suntuosos ou ele iria preferir fazer suas rezas e pajelanças no meio da floresta? Será que o baiano iria preferir fazer sua gira no luxo e na riqueza ou ele iria preferir fazer sua gira em uma casinha de sapê no sertão da caatinga?

Vocês percebem onde eu estou querendo chegar? Hoje em dia tem muito essa Umbanda Nutella, das pessoas se reunirem, fazerem lá uns rituais cheios de frufru, e acabam deixando a essência da Umbanda do lado de fora (acaba faltando espaço para simplicidade e a humildade se manifestarem).

É lógico que eu não estou fazendo uma apologia à miséria, ao comodismo. Não é nada disso. Eu acho sim que a gente tem que batalhar para tentar melhorar a nossa condição de vida. Afinal de contas, um pouco de conforto na vida material sempre é bom, não é verdade? O que eu critico é são os excessos. Principalmente quando a pessoa coloca a riqueza material como meta de vida, como objetivo final. “Ah, eu vou ser rico! Eu vou ter muito dinheiro!” Tu queres ser rico para quê, filho de Deus? para viajar o mundo? para comprar o que quiser? Olha como esses objetivos são egoístas! E com isso, as pessoas acabam deturpando a finalidade principal da riqueza, que deveria ser apenas um instrumento de Deus, como um instrumento de evolução. Você sabe quando é que a riqueza é bem empregada? Quando os recursos financeiros são direcionados para uma causa social ou uma causa religiosa. Mas vamos lá, voltando ao assunto…

Eu estava falando da beleza da simplicidade na Umbanda. De como os espíritos superiores valorizam a humildade e a simplicidade na hora de dirigirmos nossos corações para Deus. Só que muitas vezes, as pessoas que cultivam a religiosidade, não conseguem fazer essa associação, elas não conseguem traçar esse paralelo que existe entre humildade, simplicidade com evolução espiritual. E olha, eu não vou criticar aqui outras religiões tá? Porque eu, como Umbandista, não tenho o direito de falar mal da casa dos outros, né? A minha casa é a Umbanda. E dela eu posso falar com um pouco mais de propriedade, porque eu vivo a Umbanda todos os dias.

No caso da minha religião, por exemplo, eu já vi muita gente dando valor a um terreiro pelo tamanho que ele tem, pela quantidade de pessoas que frequentam o lugar ou pelo número de trabalhadores. Como se isso fosse um termômetro da qualidade do trabalho ou da presença dos bons espíritos. Mas olha, eu já participei de giras maravilhosas que tinha uma meia dúzia de pessoas. Por outro lado, eu já fui em giras enormes, com centenas de pessoas, onde eu não senti nada além de vontade de ir embora. Porque eu digo uma coisa para vocês: quanto mais um terreiro cresce, mas fica difícil de manter a harmonia espiritual. Se um terreiro pequeno já é complicado, às vezes, de controlar as picuinhas, as maledicências, imagina um terreiro grande! Imagina o tanto de pensamentos desequilibrados que podem influenciar no trabalho espiritual!

Então, gente, o que eu falo aqui é o seguinte: querem fazer um trabalho espiritual com o respaldo dos bons espíritos? Então se atenham à simplicidade. Porque Deus está nas coisas simples! A beleza reside em cultivarmos sempre a humildade, juntamente com a prece e com os bons pensamentos. Agindo assim, você vai ver que os guias de luz estarão sempre presentes em sua vida.

É isso aí! Com o nosso empenho, com o nosso esforço, no caminho certo ele nos conduzirá. E quem irá nos conduzir? Deus, Jesus? Ou talvez quem conduzirá o teu caminho seja o nosso Pai Ogum? Não importa o nome que você dê à força divina que nos conduz.

E aproveitando aqui que a gente está falando sobre esse assunto, eu lembrei de uma poesia do Pai Antônio que nos induz à reflexão. O que nós estamos fazendo da nossa vida? Como estão as nossas atitudes? Será que estamos preparados para viver em um mundo melhor? O que vocês acham? Vamos ouvir a poesia?

Oh, Peregrinos da Vida Sagrada, 
Andarilhos desta longa estrada, 
O que fazeis de vossos caminhos? 
Desejam o Céu, mas não fazem nada 
Para modificar a caminhada, 
Permanecem parados, sozinhos.  

Oh, Viajantes do tempo eterno, 
Aspirantes de um mundo fraterno, 
O que fazeis de vossos destinos? 
Querem viver num mundo moderno 
Mas fazem da vida verdadeiro inferno 
Em meio a tristes desatinos.  

Oh, moradores do espaço infinito, 
Sonhadores de um mundo bendito, 
O que fazeis para vos melhorar? 
Permaneceis angustiados e aflitos, 
Mas não deixais de lado os conflitos, 
Provocando sempre mal-estar.  

Aprendizes deste Grande Universo
Arrumai os pensamentos dispersos 
Para caminhardes em direção à Luz. 
Pois enquanto ficardes imersos 
Nas ilusões deste mundo perverso 
Não conseguireis ver Jesus. 

O que vocês pensam desses versos? Muitas vezes a gente quer ter uma vida melhor, a gente quer ter um mundo melhor, mas não fazemos nada para que isso aconteça. Permanecemos parados, inertes. Tem uma frase que eu li uma vez e que eu acho o máximo: “Seja você a transformação que quer ver no mundo”. Não é bonito isso? A mudança tem que vir de dentro para fora! Só assim nós conseguiremos dar o pontapé inicial para que as transformações exteriores aconteçam.

A poesia fala que nós somos andarilhos de uma longa estrada. Eu diria que nós estamos numa situação ainda pior: somos indigentes espirituais. Não sabemos onde estamos e nem para onde vamos. Vivemos mendigando, dia após dia, a caridade de Deus. Nós desejamos viver em um mundo melhor, mas o que nós fazemos para merecer isso. Nós desejamos ter um mundo mais fraterno, mas será que estamos tratando o nosso próximo como verdadeiros irmãos?

Porque enquanto nós permanecermos nesse egoísmo, nessa nossa vida desequilibrada, não teremos condições de progredir, muito menos de aspirar um mundo melhor. Nós estamos vivendo em um mundo que condiz com a nossa evolução. E olha que a espiritualidade fala que o planeta terra é um dos mundos mais primitivos que existem no universo. Você consegue imaginar isso? Nós ainda estamos engatinhando como espíritos conscientes. Tanto é que muita gente ainda duvida da existência do mundo espiritual. Porque o espírito dessas pessoas ainda está adormecido. A maioria de nós, que vivemos aqui na Terra, se compararmos com espíritos mais evoluídos, somos crianças, somos bebês. Não entendemos quase nada do universo que nos cerca. A gente não consegue perceber nada além daquilo que os nossos sentidos grosseiros da matéria nos mostram.

Mas a gente pode mudar essa história. Nós podemos, aos pouquinhos, ir lapidando as nossas imperfeições para que o nosso espírito amadureça. Como diz a poesia, nós somos viajantes do tempo eterno, somos moradores do espaço infinito. A tendência é que, com o passar dos milênios, o nosso espírito vá adquirindo mais consciência. Nós passaremos dessa infância espiritual para a adolescência espiritual e, quem sabe um dia, iremos adquirir a plenitude de nossas faculdades intelectuais e morais que nos colocará no mesmo patamar dos espíritos evoluídos que nos guiam hoje. Isso, com certeza, vão acontecer. Pode ser que aconteça logo ou pode ser que demore muito. Tudo vai depender apenas do nosso esforço pessoal.

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