Salve a Malandragem!

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Vamos conversar um pouco sobre a Linha dos Malandros? Quem são as Entidades que se manifestam com esse arquétipo tão característico e fazem um trabalho tão bonito na Umbanda?

Transcrição do Episódio

Olá, meus irmãos, minhas irmãs! Bom dia, boa tarde, boa noite! Desejo a vocês uma ótima semana, que seja uma semana abençoada! E hoje, atendendo a pedidos, a gente vai conversar sobre uma linha de trabalho fantástica, uma linha de trabalho pela qual eu tenho muito carinho e admiração! A gente vai falar sobre a linha dos Malandros! Essa linha que costuma se manifestar junto com o povo da esquerda. Eles têm uma energia muito próxima. Eles têm uma afinidade muito grande com os Exús e as Pombajiras, eles auxiliam muito no trabalho dessas outras entidades, seja protegendo as pessoas dos perigos do mundo, dos perigos das ruas, como também ajudando a resgatar espíritos sofredores no baixo astral. Meu nome é Evandro Tanaka, eu sou médium umbandista e nesse podcast a gente fala sobre Umbanda, Espiritualidade, Mediunidade e sobre as poesias de um preto-velho.

Antes de abrir esse episódio, eu queria fazer aqui um agradecimento muito especial para uma pessoa, porque ela me mandou uma mensagem nesse final de semana que me deixou muito emocionado. Foram palavras de carinho, de incentivo, palavras que me tocaram fundo no coração, palavras que me dão forças para continuar nesse propósito de levar a espiritualidade para as pessoas. Eu quero deixar a minha gratidão a você, Bianca, por ter doado o seu tempo para me escrever uma mensagem tão confortadora! Muito obrigado, Bianca, pelo seu carinho e por ouvir o nosso podcast. Que o Pai Oxalá continue abençoando a sua vida! E tenha certeza de uma coisa agora, Bianca, sempre que eu der risada, eu vou lembrar do seu comentário!

Bom, mas vamos lá, melhor rir do que chorar, né? E quando vier o choro, que pelo menos seja esse choro de alegria que eu te falei na resposta. Mas voltando aqui para o nosso assunto da malandragem. Essa linha dos malandros é muito cultuada aqui na região sudeste, principalmente nos terreiros do Rio de Janeiro. Mas aqui em SP também vários terreiros recebem essa falange de espíritos comprometidos com a caridade.

E percebam, pessoal, como essa Linha dos Malandros tem a mesma característica de todas as outras linhas que se manifestam na Umbanda: é uma linha de trabalho estigmatizada pelo preconceito. Né? Eu acho que eu já comentei isso em algum outro episódio, do ponto em comum que tem entre os espíritos que se manifestam na Umbanda. São linhas de trabalho que se identificam justamente pela marginalização. Marginal, assim, não no sentido pejorativo de bandido, mas no sentido de ser excluído da sociedade, de sofrer algum tipo de preconceito. Os espíritos que trabalham na linha dos malandros hoje foram espíritos que viveram à margem da sociedade quando estavam encarnados. Mas eu repito, eu não estou falando aqui de gente criminosa, porque o espírito de criminosos não tem espaço dentro da Umbanda. Entidades trevosas não conseguem suportar a luz dos espíritos do bem.

Malandro aqui é no sentido de dar um jeito para contornar as situações da vida. Malandro, no sentido de astuto, de esperto, de saber aproveitar as oportunidades. E ao mesmo tempo, malandro para correr do perigo na hora certa. Porque malandro que é malandro sabe a hora que ele pode agir e a hora em que é melhor tirar o seu time de campo, de ficar na moita, à espreita.

Os Malandros trazem muito aquela ideia, aquele estereótipo de povo da rua, povo da noite, povo do gueto, povo do morro. Muitas entidades que hoje se manifestam na linha dos malandros foram pessoas que viveram nos morros cariocas, lá pelos idos de 1920, 1930, 1940. Espíritos que aprenderam a enfrentar as adversidades da vida, os perigos do mundo, espíritos que aprenderam a se virar para conseguir sobreviver aqui na Terra.

Tem um ponto que eu adoro da linha dos malandros. E sempre que eu ouço esse ponto, eu sinto uma conexão muito forte com o Mariano. Mariano, para quem não sabe, é o malandro que me acompanha, que incorpora em mim para trabalhar nas giras. Ouve só que ponto bacana!

Eu lembro uma vez que eu estava cantando esse ponto e o Mariano estava presente. Daí ele falou assim: “nossa, mas que ponto mais poético: lá no alto da colina”. Que lindo! Mas eu não subo colina não, eu subo é o morro! Eu sou malandro e malandro sobe o morro!

E eu não sei se vocês prestaram atenção na letra, mas o Mariano me explicou que esse ponto tem toda uma simbologia, tem um significado. Assim como todo ponto cantado na Umbanda tem uma simbologia que a gente precisa saber interpretar. Principalmente os pontos da esquerda, né, que muitas vezes tem um duplo significado que pode ser mal interpretado por quem não entende do assunto. Esse ponto, por exemplo, fala assim: “vocês estão vendo aquela casa pequenina, lá no alto da colina”, a casa pequenina faz referência à simplicidade, à humildade, porque o belo está nas coisas simples.

E quando o ponto fala lá no alto da colina, isso significa que, para gente conquistar essa simplicidade, nós precisamos subir o morro da vida (como o Mariano diz). E subir o morro, significa evoluir espiritualmente, se elevar como espírito. E olha que subir o morro é uma tarefa cansativa, difícil. Muitas vezes você vai pensar em desistir, você vai achar que não vale a pena tanto esforço. E é nessa hora que a malandragem entra em ação. Eles chegam do seu lado, batem no seu ombro e falam: “vamos, meu velho. Força! Nós estamos aqui com você! Continua subindo o morro que você vai chegar naquela casa pequenina, lá no alto da colina que eu mandei fazer!”

E a segunda parte do ponto fala assim: “é lá que Malandro mora, é lá que malandro vai morrer”. O que significa isso? Quando o malandro chega naquela casa pequenina lá no alto da colina, quando o Malandro atinge a simplicidade, através do seu esforço evolutivo, ele percebe que naquela hora, o Malandro de antes, já não existe mais, porque o Malandro de antes morreu. Vocês que conhecem a Bíblia melhor do que eu, sabem que tem uma passagem do Apóstolo Paulo que fala mais ou menos essa mesma mensagem: “deixar morrer o homem velho” Porque se homem velho não morrer, o homem novo não consegue nascer. É isso que fala esse ponto. É isso o que o Mariano tenta me transmitir: “Evoluir e deixar morrer todas as nossas imperfeições, deixar morrer os nossos defeitos, os nossos vícios, porque só assim o nosso espírito vai conseguir renascer para luz”.

É gente, os pontos cantados na Umbanda também tem fundamento! Muitas vezes a gente só precisa saber interpretar as palavras da maneira certa. Tem um outro ponto que também é muito mal interpretado pelos Umbandistas. Eu vou tocar aqui para vocês ouvirem.

Em um primeiro momento, as pessoas pensam que esse ponto fala de retaliação, que fala de vingança. Mas na Umbanda, a gente tem que interpretar o ponto da maneira certa. Presta atenção na letra desse ponto “malandro se na minha cara der, pode fazer testamento e se despedir da mulher. Se tiver filhos deixe uma recordação.”. O que vocês entendem disso? Esse ponto está falando assim: “amigo, se você fizer o mal em vida, pode começar se despedindo das pessoas que você ama aqui na Terra, porque quando você voltar lá para o plano espiritual, você não vai mais poder encontrar com elas. Porque você vai estar muito comprometido com o seu karma, por todas as coisas erradas que você fez quando encarnado.

Talvez você vá para um lugar de sofrimento, onde não vai conseguir encontrar com seus entes queridos. Daí, a outra parte do ponto fala assim: “cara que mamãe beijou, vagabundo nenhum põe a mão”. Aqui ele está se referindo ao sagrado que existe dentro de cada um de nós. Mamãe aqui, talvez seja no sentido da nossa mãe criadora. Das nossas Iabás, as Orixás femininas que nos geraram e que nos sustentam. O ponto fala que ninguém tem o direito de fazer mal para nós, porque todos nós somos sagrados. E quem ousar fazer mal para qualquer um de nós, vai acabar sofrendo as consequências pelos seus atos.

Em outros episódios, eu vou colocar para tocar alguns outros pontos de esquerda que são muito mal interpretados pelas pessoas, até mesmo pelos adeptos da Umbanda. Porque, mais uma vez, eu repito: a Umbanda não faz o mal, a Umbanda não revida na mesma moeda. Seria uma enorme contradição de a Umbanda pregar o bem, o amor e caridade e ao mesmo tempo incentivar a vingança ou a desforra nos seus pontos cantados, não é verdade? A gente precisa saber interpretar o que a gente ouve.

Eu acho que de todas as entidades que eu recebo, o Mariano talvez seja uma das que me deixam mais constrangido com as pessoas depois da gira. Porque o Mariano chega com um jeito malandro, muito mulherengo, sabe? E ele chega assim flertando com a mulherada, sabe? Ele chega no xaveco. Na hora, eu não percebo muita coisa, porque eu estou lá em Nárnia. Só depois as pessoas chegam para mim e falam do jeito do Mariano, né. Lógico que eu falo em flertar, mas o Mariano sempre aborda as pessoas de uma maneira muito respeitosa, né? É só aquele jeitão dele meio malandro, meio galinhão, sabe?

Esse é o jeito que ele se manifesta, esse é o jeito que ele se apresenta nas giras. E eu não me lembro direito, mas eu acho que o Mariano já até explicou para o pessoal lá da casa o motivo pelo qual ele se manifesta assim. Tem alguma coisa a ver com o trabalho que ele faz lá no baixo astral, com os espíritos sofredores. Alguma coisa relacionada a levantar a autoestima da pessoa que tá sofrendo lá no Umbral. Eu não saberia explicar para vocês exatamente esse conceito a fundo. Eu acho que quem saberia explicar isso melhor é a Ramira. Ela era a cambone oficial dos nossos guias. Não só do Mariano, mas também do Pai Antônio, do Tibério, do Catacumba, da Inaê, do Fagulha, do Pablo e de outros guias que se manifestavam nas giras. A Ramira se tornou uma expert nos ensinamentos dos nossos guias. Depois eu vou pedir para ela me explicar melhor o porquê desse estereótipo mulherengo do Mariano.

Vamos ouvir mais um ponto de malandro?

É isso aí gente! Quer que malandro te ajude com bons conselhos, com boas orientações, indicando o caminho certo para você seguir nessa vida? Então trata ele bem! Cuida, não só do seu malandro, mas de todas as entidades que te acompanham, sintonizando a frequência do seu pensamento e do seu sentimento da maneira correta. É isso que esse ponto fala “se quiser que eu cante bem, me prenda na gaiola. Mê de água pelo bico e cachaça de hora em hora”. Também faça suas oferendas para entidades de vez em quando. Porque a Umbanda trabalha com a energia dos elementos da natureza. E as entidades que fazem os trabalhos na Umbanda se utilizam dos elementos que nós oferendamos para manipular as energias. “me dê água pelo bico e cachaça de hora em hora”. É lógico que vocês não vão oferecer cachaça de hora em hora, né gente? É só uma simbologia. Da importância de você sintonizar o seu pensamento e o seu sentimento com as oferendas que você faz.

Então gente, só para concluir aqui, quando a gente fala da linha dos malandros, não estamos falando de criminosos… nada disso, está. São espíritos que aprenderam a contornar as adversidades da vida por meio do jogo de cintura. Pessoas que aprenderam a viver por si mesmas, que buscaram forças dentro de si para enfrentar a vida, muitas vezes sem o amparo do Estado, sem o amparo da sociedade, sem nenhum tipo de auxílio.

Porque lá no beco, na boemia, em cima do morro, não tinha polícia. Eles tinham que se virar do jeito que dava. Eles tinham que enfrentar os problemas que apareciam por lá sem contar com a ajuda de ninguém. E é esse arquétipo que eles trazem para Umbanda. É essa experiência que eles tentam trazer para as pessoas que hoje estão passando por problemas parecidos com o que eles passaram quando viveram aqui na Terra.

Vocês já ouviram falar num cara chamado Zé Pelintra? Na verdade, não é um cara. É uma falange de espíritos que se apresentam com o nome de Zé Pelintra. Essa é uma falange muito forte e muito conhecida na Umbanda. Até hoje eu não conheci nenhum terreiro que não tem pelo menos um zé pelintra trabalhando. Todo terreiro possui pelo menos um representante dessa linha. E Zé pelintra é a manifestação mais famosa que a gente conhece na linha dos malandros. [seu zé pelintra quando vem…]

É interessante que o Zé Pelintra, ele veio para umbanda, mas originariamente, ele era cultuado na Jurema, né? Considerado um mestre juremeiro que se tornou encantado. Só que na Umbanda, a gente não está falando de uma entidade. a gente está falando de uma falange inteira. Centenas e centenas de espíritos que emprestam o nome de zé pelintra para dar atendimento. Talvez a gente converse sobre Zé Pelintra mais detalhadamente em algum outro episódio, mas só para adiantar aqui, tem terreiro em que Zé Pelintra se manifesta na linha de Exú, tem terreiro em que ele se manifesta na linha de Baiano, tem terreiro em que ele se manifesta na linha de Boiadeiro. E tem terreiro onde ele se manifesta como malandro. Essa é a versatilidade do Zé Pelintra.

Bom, gente, eu acho que já está dando aqui o nosso tempo. Essa foi a nossa conversa sobre malandros. Espero que vocês tenham gostado. Mais uma vez eu agradeço à Bianca pela mensagem carinhosa que ela me enviou. E continuem acompanhando os nossos episódios nas principais plataformas de áudio. Você pode ouvir os episódios anteriores no google podcast, no Apple Podcast, no Deezer, no Amazon Music, no Spotify e também acessando o nosso site “Alma de Poeta”. Fiquem com Deus. Que o nosso Pai Maior continue amparando sempre a nossa caminhada. E salve a malandragem!

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