Incorporação Fora do Terreiro?

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Lugar de incorporação é no terreiro. O terreiro é um ambiente protegido espiritualmente, um terreiro é um lugar de Axé, e a sua incorporação no terreiro vai estar sempre sendo assistida por pessoas experientes.

Transcrição do Episódio

E aí, galerinha do Axé! Povo da Umbanda! Como é que vocês estão? Está todo mundo bem? Como vocês devem ter percebido, eu dei uma reduzida na quantidade de gravações semanais, apesar de eu continuar gravando toda semana. É que antes eu gravava dois, três episódios por semana, agora eu estou gravando um, no máximo dois, porque esse final de ano está um pouco corrido para mim. Mas vamos lá, continuamos firme e forte aqui para falar sobre Umbanda, Espiritualidade, Mediunidade e, também, poesias de um Preto-Velho.

E eu vou iniciar esse episódio aqui compartilhando com vocês mais uma poesia passada pela espiritualidade. Aliás, já faz um tempo, já, né, que eu não coloco nenhuma poesia para a gente ouvir. É que às vezes eu vou me entretendo aqui nos assuntos e acabo pecando por não colocar as poesias do Pai Antônio. Me desculpem por isso.

Essa poesia que eu vou recitar hoje para vocês, foi uma das primeiras poesias que eu recebi do Pai Antônio. Eu encontrei ela por acaso quando eu estava revirando a papelada aqui, mexendo na bagunça do meu quarto.

Eu lembro que o Pai Antônio me passou essa poesia na época em que eu ainda estava fazendo o desenvolvimento mediúnico em uma casa chamada “Senzala dos Pretos Velhos”. Essa é uma casa que faz um trabalho muito bonito, o terreiro fica em São José dos Campos, no interior de São Paulo. E eu aprendi muito, enquanto eu trabalhei nessa casa. Recebi muitos ensinamentos, adquiri muita experiência nos trabalhos mediúnicos. E eu sou muito grato a todas as pessoas que me conduziram naquele processo lento de desenvolvimento mediúnico. Sou grato à Mãe Katia, ao Pai Chico, ao Pai Maurício, o Pai Sandro. São pessoas apaixonadas pela Umbanda e dedicadas ao trabalho com a espiritualidade.

E eu lembro que quando recebi essa poesia, era um domingo de manhã. Mais ou menos umas 05 ou 06 horas. Eu tinha acabo de acordar quando eu senti a presença do Pai Antônio do meu lado. Daí ele falou assim: filho, pega um papel para escrevinhá. Daí eu parei o que eu estava fazendo e falei assim: “como é que é, Pai Antônio, o senhor quer uma papel para escrever?” E o Pai Antônio, todo amoroso respondeu: “É filho, nêgo vai fazer um trovador”. E eu demorei para entender que raio que era esse “trovador” que o Pai Antônio falava. Até o momento em que as palavras começaram a brotar na minha mente e eu fui passando para o papel. Foi assim que eu comecei a escrever essas poesias.

E essa poesia que eu vou recitar agora foi uma homenagem que o Pai Antônio quis fazer para aquele terreiro que me acolheu tão bem. E onde eu encontrei exemplos de pessoas dedicadas à prática da caridade. Vamos ouvir a poesia?

Às quintas vou numa casa
cheia de santos e velas.
Tem batuque, tem estudo,
Tem cadeiras e janelas.

Lá dentro tem um congá
Jorrando água cristalina.
Um presente de Yemanjá
Refletindo a luz divina.

De um lado tem Oxóssi,
Destemido caçador,
Bradando alto nas matas,
Leva embora toda a dor.

Do outro lado, Omulú
Faz notar sua presença,
Equilibrando a saúde
E protegendo da doença.

Do lado de fora, a tronqueira,
Guardiã do meu terreiro,
Onde eu peço a proteção
Para o Exú-Marinheiro.

E a porta de entrada da casa
Também não é lugar comum.
Nela se abrem os caminhos,
Com a permissão de Ogum

Esta casa é o meu Cruzeiro,
Onde minha alma embala.
Lá vive o amor verdadeiro
Que eu chamo de Senzala.

Eu lembro que quando eu recebi essa poesia, eu fiquei surpreso e emocionado, porque ela foi escrita muito rapidamente. E o mais estranho é que não foi um processo de incorporação, sabe? Eu sentia o Pai Antônio do meu lado, mas ele não estava conduzindo o meu corpo como ele faz durante as giras. Foi um processo diferente. É como se ele estivesse irradiando o pensamento dele diretamente dentro da minha cabeça.

Porque a incorporação é muito mais forte, eu perco o controle do meu corpo. Eu entro em um estado alterado de consciência que, muitas vezes, eu não me recordo direito do que aconteceu. Agora, quando eu estou em casa recolhido, fazendo as minhas preces, eu sinto as entidades espirituais do meu lado, mas a comunicação é mais a nível mental, sabe? E eu acho legal que seja assim, porque pelo menos eu fico plenamente consciente do que está acontecendo, eu consigo construir um raciocínio em cima do que eles estão me falando, apesar de eu não sentir tão forte a energia deles, como numa incorporação.

Gente, e eu quero aproveitar que eu estou falando sobre isso, de conversar com os nossos guias espirituais na nossa casa, para reforçar um ponto que eu acho muito importante, principalmente para vocês que estão iniciando no processo de desenvolvimento mediúnico. Não se metam a besta de querer incorporar dentro da sua casa, no lugar onde você vive. Está bem? Porque lugar de incorporação é no terreiro. O terreiro é um ambiente protegido espiritualmente, um terreiro é um lugar de Axé, e a sua incorporação no terreiro vai estar sempre sendo assistida por pessoas experientes.

Por que que eu estou falando isso? Eu já me meti a besta de querer incorporar dentro da minha casa, sozinho, e deu ruim. Na época eu ainda estava no comecinho do meu desenvolvimento mediúnico, eu ainda estava começando a sentir a presença das entidades. Eu não sabia identificar direito quem era quem.

Daí, num belo dia, eu estava sozinho dentro de casa, era um final de semana. E eu comecei a sentir a mesma energia de incorporação que eu sentia durante as giras. Daí eu pensei, nossa, que legal, eu estou sentindo a presença das minhas entidades aqui em casa. Quer saber de uma coisa, eu vou dar passagem para elas para ver se elas tem alguma mensagem para me passar.

Gente do céu, eu incorporei. E eu incorporei sem fazer prece, sem elevar meus pensamentos a Deus, sem fazer nada. Eu estava simplesmente inebriado com aquela sensação de estar incorporando dentro de casa. Só que quando eu incorporei, não eram os meus guias. Eu comecei a sentir uma fúria dentro de mim, comecei a gritar, comecei a esmurrar as paredes, as portas. Gente, eu perdi totalmente o controle das minhas emoções. Eu fiquei completamente desequilibrado.

E eu lembro que eu dei um murro tão forte na janela que o vidro quebrou. E eu fiz um talho na minha mão. Eu tenho a cicatriz até hoje desse episódio. E foi só quando eu senti aquela dor aguda e o sangue começou a pingar que o espírito desincorporou e eu fiquei lá, esgotado, sem entender direito o que tinha acontecido.

Na hora eu não entendi nada, né, mas depois eu caí em mim e percebi que eu não tinha incorporado guia coisa nenhuma. Eu tinha incorporado um kiumba, um espírito obsessor, que se aproveitou daquela situação para fazer aquela bagunça.

Então, gente, tomem muito cuidado com esse negócio de incorporação fora do terreiro. Porque incorporação não é brincadeira. A comunicação com o plano espiritual tem que ser feita de uma maneira muito séria, muito respeitosa. Aquela foi a primeira e a única vez que eu incorporei sozinho fora do terreiro.

É lógico que eu já cheguei a incorporar fora do terreiro. Eu já cheguei a participar de trabalhos espirituais nos pontos de força da natureza e nessas horas a gente recebe mesmo aquela energia forte do Orixá, né. Eu também já cheguei a participar de reuniões na casa de algumas pessoas e que eu recebi os guias espirituais lá. Mas nessas duas situações, eu estava muito bem amparado, com pessoas sérias e conhecedoras das práticas mediúnicas. Essas incorporações que eu tive fora do terreiro não foi por mero capricho, para satisfazer uma curiosidade. Foram sempre situações de ajuda, de aconselhamento, de limpeza energética. E eu sempre tive a presença, do meu lado, de pessoas encarnadas em quem eu confio para fazer esse tipo de procedimento.

E além disso, eu já estava muito mais experiente, né? Eu já conseguia identificar a natureza moral do espírito que estava se aproximando. Eu já sabia identificar quem era guia protetor e quem era kiumba. Então, gente, eu repito, tomem cuidado. Vocês que estão passando por esse processo de desenvolvimento mediúnico, sejam precavidos para não serem pegos de surpresa, como eu fui há muitos anos atrás. Sorte minha que nada mais grave aconteceu.

Só que tem muita gente que não tem essa sorte que eu tive. As pessoas podem se machucar gravemente fazendo isso. E o que é pior: elas podem machucar pessoas queridas. Porque os kiumbas, eles não estão nem aí com o que vai acontecer. Eles são a criminalidade do mundo espiritual. Para eles, quanto pior, melhor! Está certo, galera! Vamos desenvolver a nossa mediunidade de uma maneira consciente e equilibrada.

E agora eu vou passar uma outra poesia para vocês, também daquela época que eu ainda estava fazendo o desenvolvimento mediúnico. Na verdade, eu tinha acabado de fazer o desenvolvimento mediúnico e eu estava começando a dar atendimento. Eu vejo essa poesia como uma verdadeira homenagem para as linhas de trabalho que se manifestam na Umbanda. Vamos ouvir?

Na primeira semana do mês
Se renovam as esperanças.
O sorriso se faz presente
Na alegria das Crianças.

Na segunda semana do mês,
Vivenciamos o evangelho
Nos conselhos de humildade
De um amado Preto-Velho.

Na terceira semana do mês,
Encontro árvores e tocos.
Sinto a força da natureza
No trabalho dos Caboclos.

Na quarta semana do mês,
O meu coração suspira.
Porque é tempo de festejar
Com Exús e Pombajiras.

Também vibramos no Axé
Do feliz Povo Baiano
Que nos mostra sua Fé
Do tamanho do oceano.

E do mar... água salgada
Espargindo pelo terreiro,
Trás a energia firmada
Da linha dos Marinheiros.

A Senzala tem suas giras,
Cada semana tem sua linha.
Tem a força que nos inspira,
E a luz que nos encaminha.

A Senzala é a nossa casa,
Simplicidade é o nosso ninho,
É onde o espírito cria asa
E voa como um passarinho.

Não é linda essa poesia! Eu fiquei extasiado quando eu recebi esses versos do plano espiritual. Porque vocês não tem ideia da energia maravilhosa que a presença da entidade me passa enquanto eu estou escrevendo as palavras. É uma energia de carinho, de amor profundo, de cuidado. O mesmo sentimento que uma mãe tem por um filho recém-nascido. A mesma emoção quando a gente abraça alguém que nós amamos muito. Essa é a energia que os guias de luz me trazem.

Esse é o lado maravilhoso de você desenvolver a mediunidade. Os espíritos de luz nos trazem uma energia tão boa, que isso serve como um incentivo para que a gente se esforce para continuar no caminho certo.

E assim, gente, se você se propôs a desenvolver a sua mediunidade, comece a ter uma vida de retidão. Porque senão, o tiro sai pela culatra. Se você tiver uma vida desvirtuada, ao invés de você receber entidades bondosas, você vai receber espírito tranqueira. Espíritos que estão ainda em um nível vibratório muito baixo. E isso vai te trazer muito desequilíbrio.

E o engraçado, gente, que o desenvolvimento mediúnico funciona mais ou menos como um cabresto para a gente, sabe? Se você faz coisas certas, você é recompensado com presenças espirituais boas do seu lado. E a partir do momento que você começa a abrir os canais mediúnicos, você começa a sentir essa energia muito intensa.

E o outro lado também é verdade, né! Se você continua fazendo coisas erradas e abre os seus canais mediúnicos, aquela energia desequilibrada que pulsa ao seu redor vai te deixar muito pior do que você é. Porque a mediunidade é apenas uma ferramenta, né? Eu já falei isso para vocês em outros episódios. Você pode usar a mediunidade para o bem ou para o mal. A escolha é sua.

E a partir das suas escolhas, você atrai espíritos bons ou espíritos ruins para sua vida.

Gente, mudando de pato para ganso aqui. Eu estou com vontade de cantar um ponto. Eu não sei por que, hoje eu estou vibrando na energia do povo do cangaço. É… vocês sabiam que tem essa linha de trabalho na Umbanda? Eles tem uma vibração muito próxima do povo da Bahia. A única diferença é que os baianos trabalham na direita. E o povo do cangaço tem os dois pezinhos fincados na esquerda. E eles fazem um trabalho muito bonito também, ele tem uma manifestação muito forte.

E eu gravei esse ponto aqui em homenagem a eles. Vamos ver a meleca que saiu, porque eu não tenho atabaque aqui em casa, né. Mas eu estava com vontade cantar e de tocar. Daí eu pequei uma caixa de papelão aqui e comecei a batucar nela. E pensei, “ah, até que sai um som legal”. Vamos ver o que vocês acham dessa minha arte. Mas não é arte de artista, não! É arte de arteiro!

Não é bonitinho esse ponto? Quem foi que disse que ponto de Umbanda também não fala de Amor, não é verdade? Eu acho lindo esse ponto! Os brutos também amam!

E a linha do cangaço é composta por espíritos que tiveram uma vida um tanto quanto questionável aqui na Terra, né, do ponto de vista moral nosso. Então, se você for numa gira de cangaceiro, vocês vão ver espíritos que trabalham na la falange de Lampeão, Maria Bonita, na falange do Corisco. Todos esses são espíritos que viveram naquela época do velho cangaço do sertão nordestino.

São espíritos que, independente da vida que eles tiveram, eles se regeneraram de uma tal forma, que obtiveram a permissão da espiritualidade de fazer a caridade na Umbanda. E muitos desses espíritos, estão ajudando pessoas que eles prejudicaram naquela existência. Vocês sabiam disso? Eles vem, trabalham na Umbanda, ajudam as pessoas e, ao mesmo tempo, resgatam os débitos que contraíram no passado.

Essa é misericórdia de Deus que não esquece de nenhum dos seus filhos, oferecendo sempre novas oportunidades de crescimento espiritual.

Então é isso, gente! Vocês gostaram do episódio de hoje? Se vocês estão curtindo o Alma de Poeta, entrem lá no site, mandem uma mensagem para mim que eu vou ficar muito feliz de receber a opinião de vocês. É só abrir o seu navegador e digitar lá almadepoeta.com.br, clica na abinha contatos e escreve uma mensagem para mim. Se vocês estão gostando, se vocês não estão gostando, conta um pouquinho da experiência vida que vocês tem com a Umbanda ou com a fé que você professa. Me conta um pouquinho da experiência que vocês têm com a espiritualidade.

E não deixem de acompanhar o Alma de Poeta também nas principais plataformas de áudio. Nós estamos presentes no Spotify, Amazon Music, Google Podcast, Deezer, Apple Podcast, AnchorFm, Youtube e em tantos outros aplicativos de podcast que eu não sei o nome.

Então, a gente se despede aqui, pessoal, um grande abraço para vocês e até o nosso próximo encontro.

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