Falando sobre o Orixá Ibeji na Umbanda

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Hoje nós vamos conversar sobre o Orixá que rege a Linha de Trabalho das Crianças na Umbanda. Vamos entender melhor qual é a natureza dessa Energia Divina que se manifesta em tudo o que existe no Universo. Vamos entender a origem da palavra Ibeji e o seu significado.

Transcrição do Episódio

Oi pessoal! Bom dia, boa tarde, boa noite! Tudo bem por aí? Todo mundo tranquilo? Estamos iniciando mais um episódio do podcast. Graças a Deus o frio está indo embora, parece que o inverno está acabando aqui em SP. Hoje, depois de muito tempo, eu estou conseguindo gravar vestindo uma roupa mais leve. Como vocês já devem saber, meu nome é Evandro Tanaka, eu sou médium Umbandista e nesse podcast a gente conversa sobre Espiritualidade, sobre Mediunidade, sobre Umbanda e eu publico aqui também algumas poesias passadas pelo nosso querido Pai Antônio. Vocês lembram que no episódio 45 a gente conversou um pouquinho sobre os Erês? Sobre a Linha das Crianças? Pois é… Nesse episódio eu quero conversar com vocês sobre o Orixá que rege essa linha de trabalho. Sobre a energia divina que sustenta a linha das crianças. Nós vamos conversar sobre o Orixá Ibeji, também conhecido como Dois-Dois ou Doum ou Cosme e Damião, ou ainda Crispim Crispiniano. A gente vai conversar um pouquinho sobre a natureza desse Orixá e o seu sincretismo na Umbanda.

Vocês lembram que eu já conversei nos episódios anteriores que cada Linha de Trabalho é sustentada por um Orixá? A Linha dos Pretos-Velhos é sustentada por Obaluaê, a Linha dos Caboclos é sustentada por Oxóssi, a Linha dos Marinheiros é sustentada por Iemanjá, a Linha da Esquerda é sustentada pelo Orixá Exú. E da mesma maneira, a Linha das Crianças é sustentada por um Orixá chamado Ibeji.

Ibeji nada mais é do que a Energia Divina que representa a fase primeira da vida, o início, a infância, a pureza, a inocência. Eu acho que não é tão difícil de entender a natureza de Ibeji, porque nós já passamos pela infância. Nós sabemos como é ser criança, ser puro, ter o espírito inocente.

E essa energia de Ibeji, ela tem uma característica muito interessante! Ela se manifesta em tudo o que existe no Universo. Todas as coisas criadas pelo nosso Pai Olorum passam pela fase de formação. Nada nasce feito. Pra tudo existe um processo de crescimento. E isso acontece no reino mineral, no reino vegetal, no reino animal, no reino hominal e no reino angelical, em todos os reinos da natureza. Vocês já repararam que todos os seres vivos possuem uma fase infantil? Não interessa se é gente ou se é bicho. Todos nós passamos pela infância, né? Essa é a fase em que nós estamos absorvendo experiência e aprendizados que serão úteis na nossa existência.

Percebam que a energia de Ibeji se manifesta até mesmo no reino vegetal. Quando a gente olha uma sementinha, na verdade, a gente está olhando diretamente para a energia desse Orixá. Porque se aquela sementinha for plantada, ela vai germinar, ela vai crescer e vai se transformar numa árvore gigantesca! Ibeji é exatamente isso! É aquela energia latente que existe dentro de todos os seres vivos. Quando você olha um ovo, lá dentro está a energia latente de Ibeji esperando apenas o momento certo de se manifestar. Porque quando chegar o tempo certo, se ocorrerem as condições adequadas, aquele ovo vai se transformar em uma bela ave.

E a energia de Ibeji é linda, né gente? Às vezes eu fico um tempão admirando a infância que existe em toda a natureza. Admirando essa essência tão pura de Deus que se manifesta nos seres vivos. Vocês já viram filhotinhos de cachorro ou filhotinhos de gato brincando? É lindo ver aqueles bichinhos correndo despreocupados, brincando um com o outro, descobrindo a vida. E o mesmo acontece com nós, seres humanos. É maravilhoso ver aquelas crianças brincando, naquela primeira infância, quando elas ainda estão descobrindo o mundo. É maravilhoso ver a maneira despreocupada, a maneira até meio inconsequente de elas agirem, delas falarem. Essa é a irradiação de Ibeji.

Ibeji é a manifestação de Deus que nos prepara para vida, que nos prepara para crescer. E ao mesmo tempo, Ibeji é o amor puro, é a alegria. Vocês percebem como existe uma relação direta entre esse Orixá e os espíritos que se manifestam com um arquétipo infantil na Umbanda? Um está intimamente relacionado ao outro. Porque Ibeji é a irradiação divina que sustenta a Linha das Crianças, assim como sustenta a infância de todos os seres vivos. Tanto é que na Umbanda, muitos terreiros já adotaram o nome Ibeji, não como sendo um Orixá, mas como sendo sinônimo de Erê ou sinônimo de criança. Tem gente que fala assim: “hoje vai ter gira de Ibeji”, se referindo às crianças. Mas para efeitos de conhecimento, vocês já sabem, né? Ibeji é um Orixá, diferente do Erê que é uma entidade que se manifesta na energia do Ibeji. Ibeji é amor, Ibeji é alegria, Ibeji é pureza, Ibeji é inocência.

Mas agora deixa eu perguntar uma coisa para vocês: Vocês sabem o que significa a palavra Ibeji?

A palavra Ibeji, assim como o nome de todos os outros Orixás, também vem do idioma Iorubá. E essa palavra, na verdade é uma composição de duas palavras (Ibi que significa nascer e Eji que significa dois). Então, Ibeji, a gente pode traduzir como nascer dois ou, no nosso idioma, gêmeos. É por isso que a imagem do Orixá Ibeji é sempre representada pela figura de gêmeos. Quando houve o sincretismo católico desse Orixá, levou-se em conta essa característica do Orixá ser dois, representado por dois irmãos. É por isso que Ibeji é sincretizado com os santos católicos Cosme e Damião e também com os santos católicos conhecidos como Crispim e Crispiniano.

Esses quatro santos católicos, Cosme, Damião, Crispim e Crispiniano viveram praticamente no século, no século IV. No caso de Cosme e Damião, eles eram médicos e no caso de Crispim e Crispiniano, eles eram sapateiros. Tanto é que Cosme e Damião são os santos padroeiros dos médicos e Crispim Crispiniano são conhecidos como os santos protetores dos sapateiros. Isso na igreja católica, tá gente? Não tem nada a ver com Umbanda. Daí vocês podem me perguntar: E o que tem a ver essa relação de Cosme e Damião que foram médicos e de Crispim e Crispiniano que foram sapateiros com o Orixá Ibeji? Bom, historicamente, nada! Esses santos foram sincretizados pelos escravos com o Orixá Ibeji simplesmente por terem sido gêmeos. Apenas isso.

Apesar de que tem uma lenda que fala que os médicos Cosme e Damião, depois que atendiam as crianças nas consultas, eles davam doces para elas, né? Eu acho que eu até já postei uma poesia aqui no Podcast contando a história de uma Entidade que viveu na época de Cosme e Damião e que foi atendida por elas. É uma poesia linda essa! Uma poesia que me fez chorar.

Bom, mas vamos lá! Eu já falei para vocês que Ibeji significa “nascer dois” ou gêmeos. Vocês sabiam que lá na África não é todo mundo que cultua Ibeji? Justamente por causa disso: dos gêmeos! Lá na África, principalmente na Nigéria, o Orixá Ibeji é cultuado apenas pelos pais que tiveram gêmeos. E ter gêmeos para eles, é uma benção, é uma graça! Significa que o Orixá Ibeji está atuando na vida deles. Tanto é que existem determinadas épocas do ano na Nigéria, e eu acho que em outros países da África também, que os pais de gêmeos se obrigam a arrecadar e distribuir doces para as crianças. Essa é como se fosse uma obrigação religiosa. Eles acreditam que se eles não fizerem isso, os filhos gêmeos deles podem ficar doentes. É uma tradição na África dos pais dos gêmeos distribuírem doces e caruru para manter o axé circulando.

E só uma curiosidade aqui, gente, eu não sei se vocês sabem: estatisticamente, a Nigéria é o país onde se nascem mais gêmeos em todo o mundo. Interessante isso, né? Por que será que nascem tantos gêmeos naquele país? Será que é por causa dessa crença que eles têm no Orixá Ibeji que acaba influenciando na concepção? Nos nascimentos? Bom, não sei… Isso aí é só um questionamento meu. Às vezes eu fico conversando com os meus botões aqui e tentando entender o porquê das coisas. Coisas que muitas vezes não tem explicação, né?

E já que a gente está falando de África, deixa eu explicar para vocês uma coisa. Vocês já ouviram na Umbanda a expressão “Cosme, Damião e Doum”? Como eu disse lá no começo, tem gente que considera sinônimo Cosme e Damião e Doum. Só que se a gente for analisar as raízes lá na África, a gente vai perceber que Doum é outra coisa. E eu vou explicar o porquê disso:

Quando nascem gêmeos, apesar deles nascerem no mesmo dia, geralmente existe uma diferença de minutos ou de horas entre o nascimento de um e outro, não é verdade? Entre os gêmeos, tem aquele que é alguns minutos ou algumas horas mais velho do que o outro, porque saiu do ventre da mãe primeiro.

Lá na Nigéria, eles chamam esse gêmeo mais velho, o filho que nasceu primeiro, de Taiwò, que significa “vem aproveitar a vida”. E o irmão mais novo, aquele que nasce depois, eles chamam de Keyindé, que significa justamente isso: “o que vem depois”. E olha só que interessante: depois que nascem os gêmeos “Taiwò e Keyindé”, se o casal tiver um terceiro filho, ele vai se chamar Idoú. Ou então se forem trigêmeos, por exemplo, sai o primeiro, sai o segundo e o terceiro é o Idoú. E o Idoú, aqui no Brasil, acabou virado Doum. Por isso essa relação: Cosme e Damião, simbolizando os gêmeos Taiwò e Keyindé. E por último Doum, simbolizando aquele que vem depois, seja trigêmeo, ou seja, numa gestação posterior. Interessante a gente conhecer a origem das palavras, né? Isso faz a gente compreender a nossa religião muito melhor. Então, gente, a partir de agora, quando vocês ouvirem a expressão “Cosme, Damião e Doum”, vocês já sabem o que significa, né? Taiwò, Keyindé e Idoú.

Tanto é que tem um ponto cantado na Umbanda que fala assim: “Cosme e Damião, Damião cadê Doum? Doum está passeando no cavalo de Ogum!” Esse ponto está perguntando para o Cosme e Damião onde que está o Doum, ou seja, onde que está o irmão mais novo deles? Vocês conseguem entender melhor esse ponto agora?

E quando o Orixá Ibeji veio aqui para o Brasil, trazido pelos escravos que inicialmente falavam o idioma Iorubá, eles começaram a se referir a esse Orixá com a expressão Erê, que significa brincar ou brincadeira. E essa palavra se tornou tão difundida entre nós aqui no Brasil, que hoje Erê e criança são praticamente sinônimos na Umbanda. E mais uma vez, eu reforço aqui, a Umbanda não confunde o Orixá com a Entidade. Por mais que o seu terreiro chame as crianças de Ibeji ou de Erê, você tem que estar ciente que eles estão se referindo às Entidades e não ao Orixá Ibeji. O Orixá Ibeji é a energia divina que sustenta essa linha de trabalho. Assim como na Linha da Esquerda a gente não pode confundir o Orixá Exú com a Entidade Exú. Lembra que eu já falei sobre isso quando a gente conversou sobre Exú? Ibeji é a mesma coisa! Em alguns terreiros, eles chamam as Crianças de Ibeji. Nesse caso, os trabalhadores daquele terreiro têm que saber fazer essa distinção entre o Orixá Ibeji e a Entidade Ibeji.

Tem uma tradição que eu acho muito bonita na Umbanda, eu não sei se vocês fazem na sua casa. Na Umbanda, sempre quando a gente faz uma festa no terreiro comemorando o aniversário de alguém ou então uma festa de aniversário na sua própria casa, o primeiro pedaço de bolo é sempre oferecido para o Orixá Ibeji. Eu acho lindo isso! Então, para Umbandista, não tem esse negócio “o primeiro pedaço de bolo vai para o fulano de tal porque ele é especial na minha vida”. Aqui no Brasil tem esse costume, né? De oferecer o primeiro pedaço de bolo para o pai, para mãe, para namorada, para o marido, simbolizando que aquela é uma pessoa especial para você. Na Umbanda, o primeiro pedaço de bolo é sempre oferecido para Ibeji e acabou! “E o primeiro pedaço de bolo vai para… IBEJI!!!”

Nossa, eu acho que eu estou falando tanto de Ibeji que eu já estou ficando com o espírito de Erê. Mas tem outra coisa que eu queria comentar aqui com vocês que é com relação à data em que se comemora o dia do Ibeji, ou então o dia dos Erês, tanto faz. Muita gente fica na dúvida, será que é no dia 26 de setembro ou no dia 27 de setembro? Porque se você pesquisar na internet, têm essas duas datas como sendo o dia dos Erês. O que aconteceu foi o seguinte: há algum tempo atrás, no século passado, tanto a Umbanda quanto o Candomblé, foram muito perseguidos até pelo governo. Parece um absurdo, né gente, mas aconteceu. O Candomblé, principalmente, era muito perseguido pelas autoridades policiais.

E teve uma época que foi proibido comemorar o dia de Ibeji no mesmo dia dos santos católicos “Cosme e Damião”. Isso era considerado uma afronta à igreja. E a igreja celebra Cosme e Damião no dia 26 de setembro. E daí o que aconteceu? Bom, já que eu não posso comemorar o meu Orixá no dia 26, senão eu posso sofrer algum tipo de represália, então eu vou comemorar no dia seguinte, no dia 27. E essa tradição se manteve, mesmo depois que já não havia mais essa proibição. Então, dia 26 é dia de Cosme e Damião e tem alguns terreiros que celebram Ibeji no dia seguinte, no dia 27. Mas tem terreiro que comemora no dia 26 mesmo, que é o dia dos santos católicos. Já que não é mais proibido, em respeito ao sincretismo. Então, isso vai da sua casa, né? Não interessa se é no dia 26 ou 27. Vai de você, vai da sua fé.

E como a gente está falando de celebração, tem o dia da semana certo que também é consagrado a esse Orixá. Tem gente que cultua Ibeji no sábado, junto com Oxum e Iemanjá. Oxum por ser a Iabá do Amor e Iemanjá por ser a Iabá da concepção, da geração. Essas duas Iabás (pra quem não sabe, Iabá é o nome que se dá à Orixá feminino), elas estão muito próximas a Ibeji. Por isso é cultuado no sábado.

E tem gente que prefere cultuar Ibeji no domingo, que é o dia de Nanã, a Iabá mais velha, a mãe de todas as mães. Eu, particularmente, prefiro cultuar Ibeji nesse dia, no domingo. Porque eu imagino Nanã como sendo a nossa vovó, a matriarca da família. E no domingo, muita gente se reúne na casa da vó para reunir a família. E daí é aquela festa, né? Reúnem mães, pais, crianças, primos… Por isso, eu prefiro cultuar Ibeji no domingo. Domingo para mim é dia de alegria, de união familiar. Mas isso também vai de cada um. Se você prefere cultuar Ibeji no sábado, junto com Oxum e Iemanjá, cultua! Se você prefere cultuar Ibeji no domingo, junto com Nanã! Cultua também! O importante é a nossa fé!

Quer fazer uma oferenda para Ibeji? Vai ao jardim ou então vai numa praça. Esse é um ponto de força do Ibeji. Pode ser no jardim da sua casa, pode ser em uma pracinha na rua. Só não vai fazer sujeira e porcalhada quando você for fazer oferendas em espaços públicos, né? Lembra que acima de tudo, Umbanda é respeito ao próximo. Faz uma oferenda discreta, sem chamar atenção, sem que as pessoas tenham motivos para te criticar. Porque tem gente que faz oferendas em espaços públicos e deixa aquele monte de lixo. Isso não é Umbanda, gente! A gente tem que praticar a nossa religião com consciência ecológica e respeito ao próximo.

Quando você for acender uma vela para Ibeji no seu altar, não acende uma não, acende duas! Lembra que Ibeji são gêmeos. Então a gente acende uma vela para cada um. Uma vela para Cosme e uma vela para Damião. A gente coloca uma vela ao lado da outra. Na Umbanda geralmente a gente acende uma vela rosa claro e uma vela azul claro. Tem gente que acende uma vela de duas cores, né? Metade rosa e metade azul. Eu, particularmente, eu prefiro acender uma para cada.

E é isso, gente! Acho que era isso que eu queria falar para vocês sobre Ibeji. Vamos internalizar dentro de nós essa energia maravilhosa! O amor, a alegria de ver as coisas pela primeira vez com a curiosidade infantil, pura e inocente das crianças. E eu quero terminar esse episódio aqui cantando um ponto de subida para Ibejada!

“Vai, vai, vai Doum. Vai, vai, Cosme e Damião. Vai com Crispim e Crispiano no jardim, colher as flores para o congá! É que a onda vai, é que a onda vem. É que a onda vai e as crianças vão também. É que a onda vai, é que a onda vem, é que a onda vai e as crianças vão também.

Um grande abraço para vocês, fiquem com Deus! E que Cosme e Damião possam trazer amor e alegria na vida de todos vocês!

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