Adorei as Almas – Parte 1

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Impossível falar de Umbanda sem mencionar a figura dos Pretos-Velhos, não é verdade? Essa falange de luz que trabalha no anonimato, escondidos atrás de pseudônimos como Pai Joaquim, Pai João, Pai José…

Transcrição do Episódio

Olá, olá! Oi gente! Tudo bem com vocês? Bem vindos a mais um episódio do nosso Podcast Alma de Poeta. Meu nome é Evandro Tanaka, eu sou médium umbandista e e hoje a gente vai falar sobre um assunto mais do que especial, sobre uma linha de trabalho da Umbanda pela qual eu tenho verdadeira adoração. É a linha dos nossos queridos pretos-velhos, pretas-velhas, a Linha das Almas. Adorei as Almas!

É claro que eu também gosto e tenho profundo respeito e admiração pelas outras linhas, mas gira de preto-velho, gente, para mim é muito especial. Talvez porque o meu guia de cabeça seja um preto-velho, né? O Pai Antônio… o Pai Antônio é um espírito que carrega tanta sabedoria, tanta experiência e ao mesmo tempo possui uma simplicidade, uma humildade que coloca todo mundo muito à vontade na sua presença.

E esse é o estereótipo de um preto-velho, de uma preta-velha… são espíritos muito vividos, muito antigos. E ao mesmo tempo, são espíritos cheia de ternura, de amor, de compaixão. Quando a gente senta em um banquinho para conversar com um preto-velho, é uma energia tão boa que parece até que ele vai pegar a gente no colo, como se nós fossemos crianças. É tão bom ficar ouvindo as palavras, os ensinamentos, os “causos”. Eu poderia passar horas e horas ouvindo um preto-velho falar, sentindo o cheiro do seu cachimbo, o cheiro das folhas de arruda que eles usam para benzer. É maravilhoso estar na presença deles.

Eu estou gravando esse episódio, já pensando no dia 13 de maio, a data em que a gente comemora na Umbanda o dia dos pretos-velhos. Porque o dia 13 de maio ficou conhecido no Brasil como o dia da libertação dos escravos, o dia da abolição. Foi nesse dia que a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea. A partir dessa data, a escravidão ficou proibida no Brasil. Então vamos sentir um pouquinho a energia de preto-velho.

[ponto cantado]

Uma vez eu ouvi o Pai Antônio falar que essa simbologia da gente ver o preto-velho como um ex-escravo que se libertou tem um significado muito mais profundo do que simplesmente enxergar o lado histórico da coisa. Esses espíritos iluminados se apresentam como pretos-velhos para nos passar principalmente uma mensagem de superação. O Pai Antônio fala que nós, aqui na Terra, estamos vivendo em cativeiro, assim como ele viveu. Mas nós estamos vivendo no cativeiro da matéria, no cativeiro do vício, no cativeiro de pensamentos desregrados. Nós somos escravos das nossas paixões, somos escravos dos nossos sentimentos desequilibrados.

O Pai Antônio diz que muitos espíritos que passaram por esse cativeiro já conseguiram se libertar. Hoje são espíritos verdadeiramente livres. Eles não são mais escravos de si mesmo. Vocês estão entendendo essa analogia? Não é à toa que a espiritualidade escolheu justamente a figura do preto-velho, da preta-velha para simbolizar a sabedoria, a paciência, a renúncia. Porque se a gente for analisar só a experiência que o Pai Antônio teve aqui na terra naquela encarnação como escravo… olha só: ele nasceu como escravo, cresceu como escravo, envelheceu como escravo e morreu como escravo. Quando foi que ele se libertou? Assim como milhões de escravos que viveram a vida física todinha no cativeiro. Porque quando ele vivenciou aquela experiência reencarnatória, ainda faltavam muitas décadas para o Brasil começar a falar sobre abolição.

E olha só que legal: muitos pontos de preto-velho cantam a libertação, o fim do cativeiro. Mas essa libertação deve ser entendida como a libertação do espírito, como a superação do espírito sobre suas imperfeições. Se hoje somos escravos de nossas próprias atitudes, de nossas próprias falhas, com a ajuda dos pretos-velhos, com a ajuda das Entidades, amanhã nós também cantaremos que o cativeiro acabou.

[ponto cantado]

É isso aí! O nosso cativeiro também há de acabar um dia, se Deus quiser. E quando a gente pensa na linha de preto-velho, a primeira imagem que vem na cabeça é que são espíritos de negros, idosos, que foram escravos, não é verdade? Mas será que isso é uma regra? Será que todo preto-velho foi escravo e foi negro em uma vida passada? Não necessariamente. E eu vou explicar para vocês o por quê. A Umbanda trabalha com arquétipos. Você sabe o que é um arquétipo?

Vamos fazer uma brincadeira alqui. Imagine que saiu um anúncio no jornalzinho de Aruanda falando assim: “precisa-se de espíritos para trabalhar na Terra como guia espiritual”. Talvez os espíritas kardecistas não saibam o que é Aruanda. Aruanda é mais ou menos como se fosse uma colonia espiritual envolvida pela Egrégora da Umbanda.

Então vamos lá, voltando para a nossa brincadeira. Saiu lá o anúncio no jornalzinho de Aruanda abrindo vagas para trabalhar aqui na Terra como mentor. Daí, o pessoal que vive lá em Aruanda, que já tem as suas características próprias, ou seja, que já se apresentam de uma determinada maneira, eles se interessam pelo anúncio, vão lá, se candidatam, apresentam o seu currículo. Só que antes deles começarem a trabalhar, é feita uma triagem. Uma triagem para identificar as virtudes principais que aquele espírito carrega, virtudes que poderão ser úteis no trabalho que ele vai desempenhar aqui na Terra.

Daí o selecionador, o empregador, vai olhar para o espírito, vai olhar para o currículo e vai falar assim: “eu estou vendo aqui que você tem força de vontade, tem persistência, tem uma energia forte. Olha, eu tenho uma vaga aqui, eu acho que vou colocar você como Caboclo”. Daí ele olha para um outro currículo e fala assim: “ah, você tem muita sabedoria, muita experiência de vida. Então você vai trabalhar como preto-velho. Já você… você é tão espontâneo, tão alegre, tão divertido! Eu vou botar você para trabalhar como Erê!”.

Vocês estão entendendo, gente? É lógico que isso é só uma brincadeira. Não é assim que funciona. Não existe um jornalzinho de emprego lá em Aruanda. Mas isso é o que a gente chama de arquétipo. Quando o espírito se encaixa, quando o espírito possui determinadas características ou qualidades que poderão ser utilizadas no trabalho que ele vai desempenhar junto aos encarnados.

[ponto cantado]

Gente, eu adoro esse ponto! E vocês prestaram atenção na letra? “É só pensar na vovó que ela vem te ajudar”. Porque tudo começa com o seu pensamento. É o seu pensamento que vai te ligar com as Entidades. Não adianta nada você ser mestre em fazer oferendas, saber de cor mil e uma receita de oferendas, mas na hora de deitar as oferendas, não sintonizar o pensamento com os seus guias espírituais, com a energia dos Orixás, com Zambi. Sem o teu pensamento direcionado, a tua oferenda vai ser apenas um ritual sem qualquer efeito, sem qualquer função. Vai ser uma garrafa vazia sem conteúdo.

Quando vocês forem fazer oferendas, seja para os Orixás, seja para as Entidades, coloquem amor no coração, coloquem amor no pensamento, naquilo que estão pedindo ou agradecendo. O principal agente responsável por energizar positivamente a sua oferenda e, principalmente, para aproximar os bons espíritos da sua vida é o amor. Coloquem amor, muito amor em tudo que vocês forem fazer. E no caso das oferendas, em particular, peçam licença a Deus.

[ponto cantado]

Vamos contribuir com boas atitudes para fazer a Umbanda melhorar cada vez mais! O preto-velho traz o arquétipo da experiência do ancião. Daquele que compreende as dificuldades que a gente está passando na vida, porque ele também já passou por isso. Ele também já sofreu, já chorou. E da mesma maneira que, naquela época, ele foi consolado pela espiritualidade, hoje ele vem nos consolar e nos dar esperança. Porque ele sabe que, no futuro, nós também teremos a oportunidade de trabalhar em favor daqueles que virão atrás de nós. Essa é a lei da Umbanda. Nòs aprendemos a quem sabe mais e ensinamos a quem sabe menos.

Tem uma música linda que a Maria Bethania canta que se chama “Ya-ya-Massemba”. Vocês já ouviram? No finalzinho da música, ela interpreta um preto-velho cantando. Ela canta assim: “vou aprender a ler para ensinar meus camaradas. Vou aprender a ler para ensinar meus camaradas”. Olha só, gente, olha o espírito do preto-velho! Ele quer aprender, mas ele não quer aprender em benefício próprio. Ele não quer aprender a ler para tirar proveito disso. Ele quer aprender para poder ensinar os outros.

É isso! Esse é o espírito da Umbanda: aprender para poder ensinar, evoluir com o próprio esforço para ajudar os outros a evoluir mais rápido.

Obrigado a essa falange maravilhosa dos pretos-velhos que nos acompanham, que nos dão força e derramam luz no nosso caminho. E obrigado a vocês por ouvirem mais esse áudio. Ah, eu tenho uma novidade para falar: agora vocês podem acompanhar o nosso podcast pelas principais plataformas de áudio. Olha só: Spotify, Google Podcast, Deezer, Anchor FM, Youtube e também acessando o nosso site. Digita lá “almadepoeta.com.br“. Lá vocês também podem ouvir todos episódios, entrar em contato, deixar um “oi”. Eu vou ficar muito feliz de receber mensagens de vocês. Um grande abraço, fiquem com Deus, que o nosso Pai Oxalá os abençoe sempre e “Adorei as Almas”!

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